Ontem durante um dilúvio, num banho quente noturno, fiz algo grave:
lavei os cabelos.
Isso é contra meus princípios. Cabelo não se lava à noite. Primeiro, porque moro com outras quatro pessoas, uma delas criança, de sete meses e é impossível ligar o secador após a meia noite.
À meia noite, todos dormem o sono dos justos.
Segundo, porque dormir de cabelo molhado, apodrece a raiz dos cabelos.
Ocorre, que além do crime inafiançável citado acima, me arrependi.
De tudo.
Tudo é muita coisa? Arrependimento é coisa católica?
Tudo não inclui a minha saúde capilar.
Sei que talvez a palavra mais apropriada, não seja arrependimento. Seja reconhecimento profundo de todas as merdas que fiz.
É claro que algumas poderia ter evitado. É claro que outras não. E é claro que odeio esse papo de "se voltasse atrás, faria tudo outra vez"
Eu não faria outra vez nada do tudo que quase me afogou ontem.
A verdade é que esse momento de sanidade em meio a um mini dilúvio embaixo do meu chuveiro, foi provocado por orgulho imensamente ferido.
Pensei em escrever à todos que emergiram nas águas em que me afoguei. Num redemoinho sem fim, encarei todos eles: todos os fatos, pessoas e sabotagens.
Poderia listá-los aqui. No fundo escrevo isso, porque é a vontade que tenho. Citar os nomes, os lugares...só não as datas, porque já faz algum tempo que não me ocupo delas.
Mas como poderia ser desastroso citar nomes, me limito, sem me sufocar, a assumir em primeira pessoa que cansei. Estou me dando uma trégua. Nas críticas, na raiva, na eloquência. A Matilde, que entendeu isso antes de mim e de todo mundo, deu o fora faz tempo. Tá lá pelas bandas de Votuporanga.
Foi atormentar os ventos suaves.
Estou dando uma trégua na insegurança em estar diante de uma pessoa que minha baixa auto estima, julga ser maior que eu. No meu esforço em agradar quem sei que não gosta de mim, por causa da cara que tenho; esforço este que consiste em mostrar o quanto sou legal.
O cansaço expõe a ex-montanha intransponível do meu orgulho. A mesma que foi ferida recentemente. Precisei, mais uma vez, me deparar com as coisas que não admito nos outros e odeio em mim.
"Olha como sou legal, descolada, não sinto ciúme? Olha como sou inteligente, como sou divertida, boa de cama, como gosto de te acompanhar em filmes que eu não assistiria. Como sou sábia, complacente...Até cozinho bem sabia? "
OLHA COMO EU QUERO QUE VOCÊ GOSTE MIM PORQUE EU NÃO SEI FAZER ISSO SOZINHA?
Uso o blog como confessionário, porque no fundo sou uma babaquinha ingênua, como qualquer outra, que quer que leiam o que escrevo para ser aceita, comentada, observada virtualmente.
A vida real não é o suficiente pra despejar o quanto não sei viver.
Escrevendo agora, sinto-me livre. Talvez seja só um habeas corpus. Funciona bem como cilindro de oxigênio.
Essa semana, depois do orgulho sangrando na cozinha alheia, senti uma vontade absurda de vomitar. Não vomitei, porque diante de mim, havia duas taças vazias e usadas que não conteriam o fluxo intenso das coisas que engoli para ser paciente e aceita diante do julgamento raso das pessoas que não gosto.
O vomito tava amarrada à ideia de que deveria perdoar às pessoas e aos acontecimentos.
Como não vomitei, o corpo sábio encontrou o jeito certo e apropriado para despejar o mal que me fiz.
Precisava me afogar num mar de equívocos, pra ver que o objeto de meu perdão era eu mesma.
Tem alívio sim. Mas não tem sorrisinho no rosto nem "carpe diem". Porque depois de carregar uma tonelada de peso morto, demora uns dias pro corpo se livrar do vício da bagagem inútil, do cansaço, das rachaduras abertas nos pés. Demora para secar as roupas, e os cantos escondidos no corpo...porque senão,quando amanhecer, outras coisas apodrecerão, além da raiz dos cabelos.
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