quinta-feira, 29 de maio de 2008
O nome da menina que leu "As meninas"
Entraram três juntas. A gordona, a gorda e a gordinha. A mãe, a filha mais velha e a mais nova, que devia ter uns onze anos. A mais nova demorou para decidir onde ia sentar e sentou do meu lado. Estava comendo um pacote de biscoito. Sim, só faltava colocar o pacote inteiro na boca. Voltei atenção para o livro. A menina também. Demorei para ter certeza, mas uma hora que virei uma página com um pouco mais de atenção, a menina virou a cabeça junto. Fiquei contente por ela ter se interessado. Mas um pouco constrangida também. As coisas que Ana Turva passava naquele momento não eram lá muito próprias para uma menina daquela idade. Continuamos lendo o livro até chegar a curva do Cascavel. Ou da Cascavel. Cada um fala de um jeito. A verdade é que ali tem um boa quantidade de venda de autopeças. Bem suspeitas é verdade e antes eu achava que o apelido da curva era por conta dos negócios nada legais por ali. Mas o nome é de origem mais simples: tem formato sinuoso, de cascavel mesmo.
Se passava quarenta minutos de leitura a menina desistiu de ler. Li mais um pouco e resolvi tirar um cochilo,ela leu bastante, pensei. Logo ela cochilou também. Desmaiou. Capotou. E para o lado do meu ombro. Eu estava meio desmaiada também e não quis me incomodar para tirá-la dali e nem acordar a pobrezinha. Logo ouvi a mãe e a irmã rindo com gosto da cena que estavam vendo; eu nem liguei, continuei cochilando. Qual o problema de tirar um cochilo no ombro de uma desconhecida? Já havíamos lido juntas até! Acabaram por acordar a menina e a vigem durou uns dez minutos até chegar o meu ponto. Era o delas também. Desci, elas um pouco atrás. “Ai Laura, só você mesmo!!!”
Cadê o coreano?
Coreano, como assim coreano? Ela tinha ido morar sozinha, não tinha nenhum coreano ali e pelo que ela falou o namorado que namorava ela na época não tinha nada de coreano. "Cadê o dinheiro, cadê as jóias?". Que jóias moço, a Fabiana tava desempregada na época, como ela ia ter jóias?!
“Ah, não era você quem a gente queria roubar não, mas para não perder a vigem vamos ter que levar algo de você” . Tudo bem, não se vem a essa vida a passeio mesmo. Eles levaram o DVD, o video game e uma outra coisa que não lembro, devia ser a TV. Para não perder viagem, no susto , será que daria para negociar alguma coisa?
“Você não foi esperta, colocou esse negocinho aí na porta, a gente pensou que era a casa de um coreano”. Ah sim, o “negocinho” na porta, era desses penduricalhos do oriente. Dizem que para dar sorte.
segunda-feira, 26 de maio de 2008
GO SPEED GO!!!!!!
Aí tem uma hora que o Corredor X fala pro Speed Racer que quem tem que descobrir por que continuar correndo é ele mesmo. Lá no final, no Grand Prix, ele se lembra de todas as coisas que a família e os amigos disseram. Final feliz, ele corre que nem doido e vence a corrida. Filminho bom para distrair, bom passeio com a Julinha, até me emocionei, pois sim, estou assumindo minha breguice. "E que eu tenha a grande coragem de resistir a tentação de inventar outra forma". página 15 Amém.
Agora estou lendo "As Meninas" da Lygia Fagundes Telles, um dos livros que "adquiri" na época da biblioteca, mas fugi dele. E não adianta fugir né? Uma hora te pega pelos dedinhos, olhos, nariz... Hoje li o que a irmã Clotilde disse para Lorena: "O estado de graça de uma alma está mais num estado de inconsciência do que em outra coisa. Gosto muito do pintor primitivo enquanto ele ainda não sabe que é primitivo". Aqui achei a ponta de uma camada a ser descoberta. Na página 149.
O que isso tem a ver com o Speed? Nada.
Boa noite.
"O mundo é seu. Você não é tão presa ao tempo como imagina. Faça uma conexão com uma árvore ou uma planta. É mais importante ser você mesma do que esconder coisas. As ferramentas do artista lhe dão uma chance de balançar e alterar as leis da natureza. Cortar e remoldar a fábrica de realidade." John Frusciante
sábado, 24 de maio de 2008
Como beijar o céu? Começando pelo chão.

Escrever tem sido a maneira descompromissada de liberar espaço aqui dentro. Ler, o jeito diário de viajar até o Metrô Brigadeiro. Escrevendo para mim, para mim, só para mim.
Apaguei o último post do fotolog não só porque recebi uma crítica mais enfática e direta. O que escrevi era para mim.
Seria muito estranho, nesse momento, escrever sobre qualquer coisa que não fosse...o que está sendo.
Durante as leituras escrevo. E durante a escrita, sou interrompida. “A minha salada chegou, mas pedi de rúcula. Rúcula. E me mandam alface.” Como mesmo assim. Fico olhando milhares de vezes no celular, para calcular os minutos que tenho até ter que subir. Me perguntando as perguntas que não são minhas. Não é ruim me sentir bem no trabalho que estou, na rotina que estou, sem o teatro em que não estou. Eu ainda estou pulsando.
Aquela história de que eu não queria mais nada, de que eu não tinha vontade para mais nada. É verdade.
Não queria nada do que eu estava vivendo. “Ah que pena, você realmente merecia terminar”. Como assim? Merecimento. Merecer. MERECER. Percebe essa palavra: MERECER; fala sílaba por sílaba e vai ver que ela não é muito apropriada para essa situação.
Aqui não foi o acaso que decidiu por mim, não foi uma luta sem recompensa. A desistência não foi um afogamento e não terminar a faculdade não foi o destino cruel a que os pobres jovens de periferia estão condicionados. Minha condição foi condicionada por mim, no que diz respeito a isso, até aqui.
Teatro. A pergunta não é essa; “Ah, você descobriu que não era isso que queria?”.
A pergunta é por que eu queria tanto.
Sempre foi difícil, há 8 anos tudo têm sido difícil, há 5 eu comecei a aprofundar os estudos, há 1 eu decidi ir para cima, coincidentemente comecei a questionar tudo, há alguns meses comecei a duvidar. “Questione mas não duvide”. Pois então me distancio serenamente para ver de outro ângulo e ir numa camada mais profunda do que a que superficialmente me apossei e me agarrei como última tentativa de não desistir. Tentar não desistir é por si só uma afirmação de desespero.
Desisti do teatro. E ao contrário de todas as outras vezes que pensei em desistir, o pensamento a frase, a conclusão, não vem acompanhada por um choro compulsivo. E olha bem, não me sinto desconfortável quando me perguntam quando eu volto, se retomo a faculdade, se quero montar um grupo, por que disso ou daquilo. Me encaro bem nessa escolha; me descobri uma perfeccionista frustrada, uma inquieta com pose serena e gentil, uma descontente com reclamações cheia de camuflagens engraçadinhas.
Nos últimos meses eu fiz descobertas incríveis, tive encontros delicados com um ou uns novos jeitos meus de interpretar. Abandonei velhos vícios de interpretar. Questionei tantos outros tipos de interpretar. E cheguei no fundo do poço, no pavor, no terror de entrar no palco e... interpretar.
Aos companheiros (aos que gosto e não gosto) de início de TCC, ficaram questões. E não vou colocar aspas entre elas. Falarei em primeira pessoa, já que os velhos hábitos escapistas não valem.
As escolhas estão ai para serem feitas. Lá no início houve propostas, as quais eu me propus também. Mas no meu caminho há um propósito maior, quase etimológico, do que é ser verdadeira. Eu virei um exemplo qualquer, para qualquer coisa, e isso não é de verdade.
“O ator não deve fazer o laboratório do convencer-se”, foi alguma coisa assim que a Marcella disse. Poderia ser Machado, Guimarães, Pirandello e foi a Roma, tão proposta quanto qualquer outra proposta. E a escolha passou a ser...escolhas.
Eu fui uma atriz que me convenci. Me convenci de que realmente sempre fui boa e poderia ser mais e mais ainda, mesmo aos trancos e barrancos, no que eu tava fazendo. Me convenci. Quase numa disputa comigo mesma, sem falsa modéstia “Tudo bem, vocês venceram, vou continuar fazendo isso aqui porque sou boa nisso.”
Só que eu não estava feliz.
E por favor, sem dedos. Ainda vou ao teatro, posso ouvir as intermináveis conversas sobre os laboratórios. Não nos tratem, a mim e ao teatro, como namorados ressentidos que fingem que não se conhecem mais. Até me emocionei numa peça que fui assistir semana passada. Fiquem tranquilos. Andei olhando uns sites bacanas sobre jardinagem, animas domésticos. Está sendo ótimo ELIMINAR A PORRA DO JULGADOR.
Boa noite.