domingo, 29 de junho de 2008

Amém!

"Há um mundo além do nosso, um mundo que , próximo e invisível. E há onde o deus vive, onde o inoperantes vivem, os espíritos e os santos, um mundo onde tudo tem acontecido e tudo é sabido. "
Maria Sabina
"Noite clara que ofusca noite escura, Deus conserve pra sempre meu bom senso temperado com uma dose de loucura"
Eduardo "alguma-coisa-que-não-entendi-porque-minha-letra-estava-horrível"



Chatén - Chile









quinta-feira, 26 de junho de 2008

Movimento separatista ou Avenida Conselheiro Carrão

"No Brasil os trólebus surgiram em 1949 na cidade de São Paulo[2]. Vários sistemas seriam criados entre os anos 1950 e 1960 como os do Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Niterói, Porto Alegre, Salvador, Campos dos Goytacazes, Fortaleza entre outros, sendo a maioria destes extintos até o início da década de 1970. Restariam, daquela época, apenas os sistemas de São Paulo, Recife, Santos e Araraquara."

Duas horas e meia. É o tempo que geralmente levo em dias levemente caóticos como as quintas e as sextas para chegar em casa. Hoje não foi diferente. Me dispus até em ir de pé na primeira lotação que estivesse na plataforma, para não perder muito tempo. Não adiantou. Há um absurdo inexplicável (mas incrivelmente verdadeiro) de que quanto mais cedo se sai do trabalho, entre 18:00 e 19:00 horas, mais tarde se chega ao seu destino-casa-faculdade.
O problema do meu trajeto, na maioria das vezes, é a Conselheiro Carrão. Paralela à ela está a Aricanduva, que poderia ser uma boa opção se tivesse ônibus direto para a minha residência e se não houvesse uma fila considerável até conseguir entrar em um dos ônibus que faz o percurso por ela. Portanto vou pela Conselheiro, que tem esse nome, porque o Sr.João da Silva Carrão, era um homem importante em sua época, segundo consulta à Wikipédia.
Chegando à um trecho da Avenida que "normalmente" leva 20 minutos para ser percorrido; já estava ali, parada, resignada, desconsolada há pelo menos 40 minutos...de pé...de salto alto...com um cidadão recém saído de seu digno happy hour, bufando seu respectivo bafo feliz ao alcance de minhas ventas.
Um pouco mais à frente, estaria o Terminal Carrão. A essa altura, todas as pessoas que atendiam ou faziam ligações ao celular repetiam a mesma referência: " chegando no cemitério". Cemitério Vila Formosa, fica ao lado do Terminal Carrão. Este sim fica no Carrão, porque o Metrô Carrão fica no Tatuapé.
Conflitos de localização geográfica a parte, senti cheiro de Trólebus quebrado. Trânsito ali tem, é fato; mas daquele jeito, só poderia ser defeito nos fios elétricos, algum que enguiçou na esquina da João XXIII ou algo intimamente relacionado.
Apesar dos "prós" relacionados também na Wikipédia, nunca na vida achei graça ou utilidade nessa invenção, charmosa e ecologicamente correta para uns e tão sem propósito para mim.
Só de lembrar o barulho discreto, a velocidade reduzida, o calor enjoativo, a catraca simplezinha, das janelas altas, os bancos cinzas, fico enjoada. Me lembra infância asmática rumo a Rua do Glória, no Sindicato dos Metalúrgicos onde tiravam um número considerável de radiografias de meus frágeis pulmões. Considerável, para uma criança de 7 ou 8 anos, digo.
Por esses pulmões, hoje cheguei, não à invenção da roda, mas à um pensamento que veio agregar um argumento para a não existência desse meio de transporte inconveniente para minha cidade. Lembrando que não escolhi morar aqui.
A quantidade de carros, de ônibus e caminhões que ficam parados ali na Conselheiro, 30 ou 40 minutos a mais do que ficariam, é absurda por causa de um misero Trólebus que supostamente teria a função heróica de salvar a cidade. A emissão de poluentes bate o que 10 desses "chifrudos" deixaria de emitir. Chifrudo é o apelido carinhosos que minha avó de 86 anos dá à esses ônibus.
Me pergunto: a quem interessa que esses ônibus continuem circulando em São Paulo?
Rapidamente minha cabeça dá um jeito de vagar para possibilidades utópicas. Ela pensa que se a cidade fosse menor, se o dinheiro não estivesse concentrado num lugar só, nunca eu precisaria passar por aquela situação e pensar aquele tipo de coisa. Sim, porque chegando à esquina da João XXIII, quem estava ali, vermelho e com pisca-alerta ligado e mais um carro-manutenção a tira colo?
Pensei que se a cidade fosse dividida em micro-cidades, cheia de seres humanos inteligentes, que produzisse o suficiente para viver e não precisasse atravessar fronteiras de gente, carros, metrôs, mágoas, depressões e marginais para ter o que precisa Trólebus ia ser motivo de piada, não sairia do papel em duas horas e meia eu percorreria as vielas da minha micro-cidade.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

"O vômito nosso, sufocado de cada dia, ME dai hoje"

Que merda ein?
Que merda que eu tô cansada de nada. Que merda que eu não tenho vontade de fazer nada. E que merda que nessa vida que a gente vive, nem trabalhar é o suficiente.
Tá tudo bem esquisito.
Prêmio bruto, prêmio emitido. Essas coisas não me sufocam mais sabia? Hoje, lendo coisas de 4, 5 anos atrás quando comecei a trabalhar na seguradora, fico me perguntando: se aceitei a condição de prostituta do sistema, me resignando ou se estou achando bom tudo isso, mas ainda não admiti? Essas coisas estão por aí zanzando na minha cabeça. Hoje não tem espaço pra poesia escondida no cotidiano. Nem ironia. Nem nada. Só vômito.
Eu olho essa merda de política que se faz nesse país, essa merda de arte, essa merda de esperança. E tô...enjoada? Não, eu não tô nada! Eu acho que estamos bem servidos. Lá "em cima" tá o "reflexo daqui debaixo". E que merda que eu tô fazendo no meio dessa zona? Uma formiguinha que trabalha pro GAP do mês ficar de acordo pros acionistas.
Essa merda de gente que a gente é, vive inventando que tem um projeto aqui, alguém sondando ali, uma proposta aqui, que a faculdade vai alavancar a gente mais ali na frente. Mas não tem merda nenhuma. A gente tá fracassado, inseguro, a gente nunca foi nada.
Talvez por ouvir muito meu pai, minha visão de política, até a adolescência tinha alguma "perspectiva" do que podia ser uma melhora. Mas, exatamente por ter vindo do meu pai, "o sonhadô lá da roça", a visão que construí de que era possível fazer alguma coisa, pela palavra e pela ação, era ingênua. E quem acreditava em coisa parecida ou fingia que acreditava (pra aparecer e ter um "palanque"), tá metido num escritório, numa gravata, cheirando, fazendo arte pra meia dúzia ver. Tô falando da época do grêmio, que eu ia em manifestação achando que era gente. Salve Mario Covas que enterrou a educação lá atrás, enquanto eu gastava a sola do meu tênis sem cadarço.
Leio alguns textos super "inspirados" na internet. De gente que nunca pisou na merda, que nunca teve uma porra de uma goteira dentro de casa, que não sabe o que é contar as moedas pra saber se vai dar pra comer o arroz e o feijão. Quanto mais saber o que é dificuldade. Aquele tipo de texto, que só chega em quem vê pobreza e falta de oportunidade feito bicho em zoológico. Quer saber como é, vê, tem dó e vai embora depois. Super comovido, super inspirado pra fazer uma doação, montar um esquete, colar cartazes. Aí o surto de consciência (hipocrisia) social, passa, porque o Jornal Nacional não foi lá ver a boa ação.
Sabe o que a gente quer? A gente quer ganhar dinheiro. Tá pouco se fodendo pra dificuldade alheia. Depois que a gente ganha meia dúzia de trocos, compra um carrão, uma casona num condomínio fechado (porque a gente quer privacidade). Tá ligando pra quem tá lá na merda ainda, feito você tava? Ah, tá bom!
Perdi e perco muito tempo com bobagem. Eu gastei meu tempo trabalhando pros outros, porque tinha e tenho que ganhar dinheiro pra ajudar em casa. Eu não estudei o que eu podia e posso estudar, porque eu sempre me achei insuficiente. Gastei dinheiro pra estudar pouco e ser limitada. Mas se eu sei de tudo isso, por que não fiz diferente? Quando entrei pra faculdade, tinha vergonha, vergonha sim, de falar que era Artes Cênicas. Que não tava estudando uma coisa mais "comum". "Porque poooobre, tem que ter alguma coisa que garanta que vai ganhar dinheiro primeiro, depois, se "dá" faz o que gosta ué".
"E agora inventou de não gostar mais?"
Coisa estranha gente-eu. Talvez eu saiba fingir bem algum talento para algumas coisas, mas não tenha talento pra essa vida aqui. Nem pra de lá.
Não sei a resposta de nada. A merda mesmo, é que fico vendo gente da minha idade "bem sucedida" e fico tentando achar o que a coloca nessa condição. Me achei pequena demais? Complexo de inferioridade? Não fiz o que podia ter feito? E direito?
O que tá faltando é vergonha na minha cara. Porque da dos outros, não posso nem quero cobrar. Não tô nem aí pra nada mesmo. Perdão pela amolação com as palavras mal escritas sobre temas mal construídos. Em gente mal acabada feito eu, as coisas ficam meio assim...Sem direção.

domingo, 22 de junho de 2008

Você viu o arco-íris ontem?



Não sei se viu, não sei se não viu.
Devia estar, segundo meu pai, “bebendo água aqui perto”.
“E alguém sabe explicar como é que forma as cores”.
De forma, não entendo. Nem de ser. “Lá na roça a gente andava o dia inteirinho pra tentar entrar no arco-íris”. Não ando o dia inteiro mas o que ando do dia, perdeu cor, perdeu forma. É um circulo que não é mais uma aliança com a vida; é um vício.
E talvez eu não saiba escrever sobre isso. Ao escrever é como se assumisse que uma camada está se desvelando e expondo o que escondo de mim. Ao assumir isso no silêncio, finjo que o não falar é para não incomodar o outro. Isso porque, pela minha inexperiência em me exprimir por mim mesma, sem os papéis que dão falas prontas, me embaraço no dizer. Me torno igual a qualquer outra aos olhos de um. A magia se perde na teimosia e os meios para se conseguir alguma percepção maior de existir, ficam mais individualizadas. Enquanto isso, aqui dentro pulsa uma vida que não sabe onde caber. Uma, que não posso chamar de inteiramente minha; me escapa às vezes. Não aprendi a frequência do regar das coisas dessa vida. Só tenho um olhar cuidadoso para com os acontecimentos dos dias, mas não sei mostrar no meu agir tanto cuidado. Me atrapalho e vejo a planta que morreu, o peixe que matou o outro e morreu em seguida. Por solidariedade eu morro também? Gente morre igual planta se não receber. E não é nada bom se alimentar de esperança; vai chegar alguém e te dar o que suas raízes estão sedentas de se nutrir?
Vê que tem uma folha seca nela? Insiste em se segurar. Se segura nela mesma. Não há mais nada que a ligue com o resto: os galhos perdidos, o tronco frágil, as raízes medrosas. Fé?
“No entanto o arco-íris não existe realmente, é apenas uma ilusão de óptica cuja posição aparente depende da posição do observador. Todas as gotas de chuva refratam e refletem a luz do sol da mesma forma, mas somente a luz de algumas delas chega ao olho do observador.”

quarta-feira, 18 de junho de 2008

24 anos ou "Até quando o corpo pede um pouco mais de alma, a vida não pára"


Dessa vez havia muitos sapatos. Muitos para escolher. E tinha muita comida para me nutrir. Massas com muito molho. Depois de escolher os sapatos, fui andar pelas vitórias-régias. Pensei: "Se podem boiar-flutuante, podem também suportar meu caminhar sobre elas". Meu caminhar dançante.

E se minhas costas não aguentam a dor da minha carência assumida, deito, me aqueço e repouso, dando uma pausa para o mundo que não quer ser carregado só por mim.


"Quando nada acontece há um milagre que não estamos vendo". Primeiras Estórias "O espelho" João Guimarães Rosa



Em GENESIS 9:9, lido no dia 16/06, a pedido do moço que escreve coisas no chão, => os homens que escreverama Bíblia falam da aliança de Deus com os seres vivos. O arco-íris.

sábado, 14 de junho de 2008

Preciosidades

Final da Copa do Brasil, Dia dos Namorados, goleada do São Paulo em cima do Flamengo hoje. Eu sou o tipo de pessoa que se envolve com essas coisas sim. Caticei o Corinthians até não poder mais e gritei no quarto gol do São Paulo no jogo de hoje. Não me importo nem um pouco com as picaretagens que usam como argumento para dizer que futebol, Dia dos Namorados, Dias das Mães, enfim, que nenhuma das datas presta. Porque é comercial demais. Não presta. A gente não presta. Consequentemente por que exigir tanto de nós mesmos? Da Biblía, dos políticos, dos ambulantes da 25 de Março? Tudo tem sua parcela de empolgação, e com exceção dos blasês de plantão, adrenalina não faz mal à ninguém. Qualquer que seja a procedência; mas o Dia dos Namorados me fez um pouco de mal físico. Fiquei com dor de cabeça, roí as unhas, peguei trânsito, tive dores nas costas e não conseguia respirar. Sintômas bem parecidos com os que sinto em dias "normais" por morar em São Paulo. Dentro da caixinha: balas, chocolates, os pequenos círculos que significam uma eternidade. Não tem começo nem fim. E fim. Tudo muito rápido, tudo com muita paixão. Futebol tem dessas coisas.

Exercício de Liberdade










"Bonito caderninho. Era isso mesmo. Acredite em reações espontâneas. Eu imaginava um assim. Não gosto de escrever por obrigação e sinto-me realmente incomodada em ter que fazer registros de aulas e fatos que não me causaram nada. Ao mesmo tempo que sei que estou conectada com os acontecimentos mínimos". A porta entreaberta que balança sutilmente com o passar silencioso da faxineira da faculdade, o cachorro que me acompanhou no trecho medroso do meu caminho até em casa, a criança que sorri na lotação, o sorriso do cobrador ao receber um "boa noite". O "distraída" é proteção, para que por enquanto eu experimente a conexão com as minhas coisas. Ecos do interior. Onde as “garçá” dá meia volta e senta na beira da praia...e do rio também.

Há um ano atrás, esse era o post lá no fotolog. Fui hoje visitá-lo porque visito coisas antigas, sempre e hoje. Bem ou mal. Verdade e não-verdade. Me fazendo bem ou me tirando o chão.
Realmente não gostava de fazer registros de algumas aulas. Achava um exagero ver quem o fazia nitidamente para mostrar que estava fazendo. No meu caderninho de liberdade, entra só o registro da data, se isso for o suficiente para mim.
Tanto não me obrigo, que durante a semana, escrevo textos mentais dos pequenos acontecimentos. O cego que entrou no Tatuapé e ainda estava criando intimidade com sua mala nova. A gêmea que usava óculos, (a outra não) e paquerava o menino do outro lado do vagão. Saidinha que era, atravessou o corredor e sorriu para ele. A mulher que vende panos de prato no Carrão e gritou para o cobrador “Cê leva iêu?”. Nenhum deles foi para o papel.
Me ocupei de contar quantas pessoas liam no metrô, quantas vezes meus olhos se irritaram ao tentar ler com a claridade batendo nas páginas, quantas vezes xinguei por dentro alguém que me passou a frente ao esperar o trem na plataforma. Me ocupei do que pude. Me ocupei de andar, quando não queria esperar, me ocupei de esperar quando não tinha força. Me ocupei de conter quando convinha conter.
Às vezes me ocupo do que não presta e me deixa imprestável. Aí tomo um banho e coloco o vestido de florzinhas nada apropriado para dias frios.
Dias sem nenhum crônica.
O vazio primordial. O arqueiro que acerta o alvo para acertar à si mesmo.
Me mantendo ocupada, abro espaço para o novo. Esperando, não acontece nada. Só “minhocações.”
Se não sirvo para os peixes, adeus minhocas.

O outro peixe também morreu...

...ontem. Eu não estava em casa.

"Essa mulher que matou os peixes infelizmente sou eu. Mas juro a vocês que foi sem querer. Logo eu! Que não tenho coragem de matar uma coisa viva! Até deixo de matar uma barata ou outra.
Dou minha palavra de honra que sou pessoa de confiança e meu coração é doce: perto de mim nunca deixo criança ou bicho sofrer.
Pois logo eu matei dois peixinhos vermelhos que não fazem mal a ninguém e que não são ambiciosos: só querem mesmo é viver.
Pessoas também querem viver, mas infelizmente também aproveitar a vida para fazer alguma coisa de bom.
Não tenho coragem ainda de contar agora mesmo como aconteceu. Mas prometo que no fim deste livro contarei e vocês, que vão ler essa história triste, me perdoarão ou não."


Clarice Lispector. "A mulher que matou os peixes"

segunda-feira, 9 de junho de 2008

"A mulher que não enterrou o peixe."


Ontem conversava com o Flávio pelo "eme ésse ene". Esse troço tem me incomodado muito. Quero ver as pessoas, quero falar com elas. Apesar de que para algumas me faltam palavras...Por favor, quero endereços. Preciso escrever para vocês. Estou falando muito sério.

A gente conversou sobre algumas coisas. Comentei sobre o cara de 25 anos que matou não sei quantos com um caminhão e com facadas lá no Japão. Assim, de graça, qualquer um que passava servia. Apesar de estar morando lá, ele não soube do acontecido. Disse o moço assassino, que estava cansado de viver (?)
Hoje eu tô cansada da vida também. Não matei ninguém. O Flávio disse que lá, o Japão, é muito melancólico. Ai eu disse: "É, imagino..." Mas logo depois retifiquei : "Não imagino não. Só tenho a imagem das letrinhas piscando e aquele formigueiro de gente atravessando as ruas". E isso não é o Japão todo né? E nem é tão melancólico assim. Ele me explicou um pouco como são as coias lá pelas bandas de onde ele mora. Tem muito arroz. Pedi fotos. E uma da porta da casa dele.

Longe, bem longe da minha casa, resolvi descer a Brigadeiro a pé depois do expediente. Estava muito aborrecida e faminta. O moço do yakisoba não estava lá. Quando me vi próxima à São Joaquim, virei e entrei no McDonald's. Entrei mesmo!
Peguei um Mc Feliz e a bonequinha "Super Poderosa"... Docinho. Uma feiosa essa bonequinha. E acende os olhinhos verdes que parece daqueles bichos de filme de ficção científica que odeio. Sentada aqui, agora, escrevendo, me cabe um remorso que jurei que não teria por comer o lanche numa segunda-feira.

Na chatisse de meu dia, ainda houve surpresas. Péssimo dia para surpresas do tipo "Você não tem todo o dinheiro para pagar essa divida" ou "um dos seus peixes matou o outro". É, quando cheguei a notícia foi dada ao vivo; presenciei um matando o outro violentamente! Um trauma. Joguei o falecido pela descarga da privada. Idiota! Foi morrer justo hoje. Poderia tê-lo enterrado num vaso do jardim, mas estava escuro e fiquei com medo do peixe mal assombrado. Fiquei muito chocada. Meu pai disse que os peixes são assim mesmo, uns matam os outros e me perguntou (com jeito de mineiro sarrista) se não era bom chamar umas rezadeiras lá da Bahia para o velório do bicho.
Dia besta. Podia ao menos ter matado alguém também.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Sobre ter um cão

"Até Dilermando ficou em Nápoles, haveria enormes dificuldades de transporte do coitadinho. Não posso ver um cão na rua, nem gosto de olhar. Você não sabe que revelação foi para mim ter um cão, ver e sentir a matéria de que é feito um cão. É a coisa mais doce que eu já vi, o cão é de uma paciência para com a natureza impotente dele e para com a natureza imcompreensível dos outros...E com os pequenos meios que ele tem, com sua burrice cheia de doçura, ele arranja modo de compreender a gente de modo direto. Sobretudo Dilermando era uma coisa minha que eu não tinha que repartir com ninguém."


Clarice Lispector, Berna, 21 de abril de 1976


Foto: Preto, que ainda conseguirei chamar de Ernesto

O tapete de boas vindas na soleira da porta

É bom escever para você também.
No "Complexo de Cinderela" de seis anos atrás, cabe um tapetinho na porta para esperar o Príncipe? Então pode usá-lo para chegar tambémdona Beatriz. "Com posts menos enigmáticos" é assim que me sinto, bem como disse em seu blog; lapidada, porém, com imperfeições que o tempo tratou de deixar por aqui para não me esquecer do que já se passou. Como aprendizado.

"Essas preciosas ilusões em minha mente não me decepcionaram quando eu era indefesa e renunciar à elas é como renunciar aos melhores amigos invisíveis." Precious Illusions - Alanis Morissette

Para minha amiga palpável.

Vaca ou chamar as coisas pelo nome


Estava procurando alguma coisa sobre o sistema auditivo dos bovinos. Mas não encontrei, ou melhor dizendo, a pesquisa foi frouxa mesmo. Queria saber mais sobre vacas surdas, ou se as saudáveis ouvem bem, em relação ao que ouvem os humanos pelo menos. Me lembro que o Socleson disse uma vez, que os bois ficam a favor do vento para ouvirem as coisas. Suponho que, com suas técnicas eles consigam ouvir melhor que eu. E mastigar as coisas certas e por muito tempo também
Fui ao Shopping Tatuapé, pagar a fatura de umas compras. A fila estava imensa e faminta que estava, decidi ir à praça de alimentação me enganando de que não comeria nada de mais. Restaurantezinho de comida mineira. Um pouquinho de cada coisa e a pimentinha doce. Aquelas bolinhas tão vermelhinhas, feito cerejas estavam ali. Peguei todas que pude. Sentei dei a primeira garfada e na segunda mastiguei a primeira bolotinha com mais atenção. Posso dizer que fiquei inconsciente por dois segundos, que achei que ia ter insuficiência respiratória em seguida e que nunca mais sentiria o sabor de nada na vida além daquele fogaréu que se fazia na minha boca, no meu esôfago, no meu estômago e na minha tão sóbria alma. Olhei para frente e tinha um segurança. Mas ele vai rir de mim se eu pedir ajuda. Ah o orgulho!"Tão bonitinha, mas uma imbecil, não percebeu que não era tão parecida com uma cereja mocinha, ela tem um rabinho, olha aqui". Me acalmei, mastigava a comida e engolia o refrigerante com tanta vontade que quem me observasse com atenção, veria alguém que ficou amarrada trinta dias sem comida. Enquanto isso, olhava aquelas sementinhas que não tem dentro da pimenta doce, mas naquela ali tinha.tinha.tinha. Ao final da refeição, que poderia ter sido uma das piores da vida se a mastigação da pimenta não tivesse sido no início e sim ao final, segui para o caixa da loja para pagar a fatura. Do caminho para casa não lembro muito bem, cochilei muito. Mas na hora de descer...Poderia ficar ali mesmo no aconchego da Volare balancenta, que seria muito feliz. Frio. O pensamento, descendo a rua que me faz chegar à viela, era só o de chegar, chegar, chegar e ver meu cachorro. Por que teimo em usar esse sapato sem meias? pé congelando. Que bom que a mãe fez esse cachecol. "Vaca". Olho para trás e sei que foi o menino que puxava o carrinho quem disse, porque o homem que vinha há uns dez passos de distância não teria aquela voz infanto-juvenil-delinquente. Olho para frente e continuo. "Que absurdo né moça?" Absurdo? Não, não sei de absurdo nenhum fora o de demorar tanto para chegar em casa, eu acho. "Você não ouviu? Foi pra você. Ele te pediu dinheiro pra comprar pão, você não respondeu...". Ah. Vontade de dizer que eu não escutava bem, nasci assim moço. Meio surda desde pequenininha. Mas fiquei calada, xingando a mãe do garoto internamente, pensando milhares de respostas que poderia dar no calor do momento, se não tivesse tanto pensamento vagando para distrair do frio. Em casa meu pai me disse, que já repetiu milhares de vezes que não era para eu passar por ali e minha mãe fez recomendações para não passar mesmo por causa dos assaltos. Mas ainda que surda e sem paladar, não posso me fingir de cega.

Terrorismo nosso de cada pensamento

Acontece que no dia que a Fabiana me contou a história do coreano, não fiz a baldeação na Sé sentido Corinthians-Itaquera. Preferi, como tenho preferido nos ultimos dias, pegar um ônibus do outro lado da praça, sentido qualquer lugar que me leve para casa. Os constantes avisos dos funcionários do metrôpara que as pessoas não permaneçam nas portas, irritam mais que a quantidade absurda de pessoas na plataforma...e nas portas. Na caminhada até o ponto, fiquei pensando, o que tenho pensado algumas vezes depois de ter sido assaltada pela segunda vez, em março; como eu reagiria a um provável novo assalto? "Assalto?". E ficaria olhando interrogativa para o assaltante, fingindo ser uma extraterrestre, recém chegada a esta vida. Poderia assim despertar mais raiva no assaltante que estouraria meus miolos com sua quadradinha, ou ainda e esperançosa me permito ser, causaria algum espanto, curiosidade e até piedade, por que não? "Essa aí não bate bem". Mas a idéia que mais me agradou e até utilizei a calçada em que caminhava como pano de fundo, foi a de contra-atacar com a ameaça de um ataque terrorista. "Assalto é seu pé de chinelo? Pois estou aqui por uma causa mais nobre que a sua e essa bolsa aí está programada para explodir quando for aberta". O assaltante ali parado, tenso, pronto para enfiar a faca no meu pescoço caso não parasse com a gracinha. "Gracinha é seu mané? Experimenta abrir a bolsa então! Ela está destinada para a o Ministério da Fazenda, ali mais embaixo, mas se você quiser adiantar meu servicinho pode abrir por aqui mesmo." Como ele não veio à esta vida aqui a passeio, feito o cara que procurava o coreano, colocou as mãos no bolso, touca na orelha e se poupou para assaltos mais produtivos. Dei sinal para o Terminal Vila Formossa, elétrico, lento e enjoativo que se aproximava. Pronta para o acaso, como uma recém chegada a esta vida.