Odeio ginecologista. Outro dia, bêbada, até ressaltei algumas vantagens de se ir ao especialista, mas todas de ordem puramente recomendáveis pela OMS. Que outra vantagem de tem de. ..Deixa... Não vou descer o nível por agora. O teor alcoólico não permite...
Fiquei meio sem jeito de sentar nas últimas poltronas da sala de espera. Todas as mulheres estavam mais ou menos perto umas das outras e achei que seria meio indelicado me isolar. Não sou um exemplo de delicadeza feminina, mas o espírito ginecológico baixou em mim. O frio do ar condicionado também. Inventei de fazer a social e sentei de frente para o maldito que se localizava bem em cima da réplica de algum pintor famoso. A moça dançando balé. Eu congelando. Na Paulista, uns 33,4ºC.
Na minha frente, uma grávida com uma barriga assustadora; fiquei com medo dela explodir e a criança sair andando.
Do outro lado, a menininha de uns 5 anos com a mãe e a avó.
“-Mãe, vó, eu quero ser bonita igual essa, essas, essa...”
“-Mas você é linda filha!”
“-Mas outro dia você viu ela na TV e falou que ela era linda...”
Na criminosa revista na mão da menina, milhares de coisas que ela queria comprar, além do ideal da moça que ela queria ser.
Saí do consultório, meio satisfeita, meio incomodada. Queria ter falado mais coisas ao ginecologista. Mas ele não quis saber, entende? Estava com pressa, tinha um jeitão de Gepeto em linha de produção. Sabia que tudo que ele me prescreveu era muito correto, afinal já fiz esses tratamentinhos de mulher umas centenas de vezes. Também sabia que havia milhares de grávidas com seus filhos por nascer, que estavam ali na sala de espera ouvindo a vaca velha bater o tamanco toc toc...por esse motivo eu não era tão importante. Sim, eu tive uma pontinha de inveja das moças que estavam recebendo mais atenção por conta de suas panças volumosas.
Quando fechei a porta, a menininha saiu da sala ao lado, o consultório do pediatra, toda saltitante porque não tinha tomado injeção. Eu também não tinha tomado. Mas ela usava umas anteninhas roxas, com duas borboletas nas pontas. Já tinha esquecido da moça da revista. Eu não consegui esquecer de nada.