quinta-feira, 29 de maio de 2008

O nome da menina que leu "As meninas"

28/05 – Terminei de ler “As Meninas”. Anteontem quando voltava para casa, lia compulsivamente, enquanto esperava a perua sair. Perua que não é mais perua, é microônibus, Volare, com motorista e cobrador com uniforme da cor da linha e logotipo bordado da Cooperpeople. Tem até lugar para umas vinte pessoas sentadas! Perua era aquela das épocas da greve de ônibus, as clandestinas, que cobravam uns cinco reais para te levar para algum lugar e ia todo mundo mais apertado do que se vai hoje.
Entraram três juntas. A gordona, a gorda e a gordinha. A mãe, a filha mais velha e a mais nova, que devia ter uns onze anos. A mais nova demorou para decidir onde ia sentar e sentou do meu lado. Estava comendo um pacote de biscoito. Sim, só faltava colocar o pacote inteiro na boca. Voltei atenção para o livro. A menina também. Demorei para ter certeza, mas uma hora que virei uma página com um pouco mais de atenção, a menina virou a cabeça junto. Fiquei contente por ela ter se interessado. Mas um pouco constrangida também. As coisas que Ana Turva passava naquele momento não eram lá muito próprias para uma menina daquela idade. Continuamos lendo o livro até chegar a curva do Cascavel. Ou da Cascavel. Cada um fala de um jeito. A verdade é que ali tem um boa quantidade de venda de autopeças. Bem suspeitas é verdade e antes eu achava que o apelido da curva era por conta dos negócios nada legais por ali. Mas o nome é de origem mais simples: tem formato sinuoso, de cascavel mesmo.
Se passava quarenta minutos de leitura a menina desistiu de ler. Li mais um pouco e resolvi tirar um cochilo,ela leu bastante, pensei. Logo ela cochilou também. Desmaiou. Capotou. E para o lado do meu ombro. Eu estava meio desmaiada também e não quis me incomodar para tirá-la dali e nem acordar a pobrezinha. Logo ouvi a mãe e a irmã rindo com gosto da cena que estavam vendo; eu nem liguei, continuei cochilando. Qual o problema de tirar um cochilo no ombro de uma desconhecida? Já havíamos lido juntas até! Acabaram por acordar a menina e a vigem durou uns dez minutos até chegar o meu ponto. Era o delas também. Desci, elas um pouco atrás. “Ai Laura, só você mesmo!!!”

Cadê o coreano?

Hoje a Fabiana trocou de horário e saiu no mesmo horário que eu. Ela senta ao meu lado esquerdo e o que consigo conversar com alguém ali, converso com ela. Do lado direito não tem ninguém, é a passagem das pessoas e tem a parede também. Nela, fica o placar indicando quantas pessoas têm na espera e quanto tempo elas estão esperando. A nossa espera ali é uma folga para poder conversar um pouquinho, já que o tempo passa tão rápido. Então a gente veio conversando, na odisséia que virou andar meia dúzia de estações do Brigadeiro até a ; começamos falando dos cachorros e passamos pelo assalto que ela sofreu assim que se mudou para o Bom Retiro. Foi morar sozinha. Estava bem acostumada ao bairro onde nasceu, tranquilo, tranquilo. Assim que se mudou para o prédio de três andares, não sei se de noite ou de dia, tocaram o interfone. Ela viu a mulher loira ali do outro lado da porta e achou que era a vizinha. Era nova ali, não conhecia ninguém. Abriu a porta. Junto com a mulher entraram os dois homens um apontando o revólver para ela "Cadê o coreano?".
Coreano, como assim coreano? Ela tinha ido morar sozinha, não tinha nenhum coreano ali e pelo que ela falou o namorado que namorava ela na época não tinha nada de coreano. "Cadê o dinheiro, cadê as jóias?". Que jóias moço, a Fabiana tava desempregada na época, como ela ia ter jóias?!
“Ah, não era você quem a gente queria roubar não, mas para não perder a vigem vamos ter que levar algo de você” . Tudo bem, não se vem a essa vida a passeio mesmo. Eles levaram o DVD, o video game e uma outra coisa que não lembro, devia ser a TV. Para não perder viagem, no susto , será que daria para negociar alguma coisa?
“Você não foi esperta, colocou esse negocinho aí na porta, a gente pensou que era a casa de um coreano”. Ah sim, o “negocinho” na porta, era desses penduricalhos do oriente. Dizem que para dar sorte.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

GO SPEED GO!!!!!!

Aí tem uma hora que o Corredor X fala pro Speed Racer que quem tem que descobrir por que continuar correndo é ele mesmo. Lá no final, no Grand Prix, ele se lembra de todas as coisas que a família e os amigos disseram. Final feliz, ele corre que nem doido e vence a corrida. Filminho bom para distrair, bom passeio com a Julinha, até me emocionei, pois sim, estou assumindo minha breguice.


No meu caso, a fase de me perguntar porque continuar correndo, como já disse, passou e eu não corro mais. Não no sentido que eu estava correndo pelo menos. Sonhos desesperadores de que ainda estou em aula, brigando com a Marcella por causa de professores, ou tendo prova do Guerra, têm acontecido, com menos frequência é verdade, mas acontecem e devem fazer parte dessa coisa que estou vivendo agora.


Assim que tranquei a faculdade, (que assumi definitivamente que tinha trancado) comecei a reler "A Paixão segundo G.H."

Tem um porquê sim. Quando eu trabalhava na biblioteca, em 2001, a Néia, que estava passando por um momento difícil pegou esse livro para ler. Na verdade, ele a pegou. Ela lia com tanta delicadeza e cuidado, que ao escrever isso parece que estou vendo a dona pequena na minha frente passando com os dedinhos em cima das letras, me lendo em voz alta trechos com os olhos cheios d'agua. Havia vários exemplares dele, mas eu disse que só ia ler quando ela terminasse. Ai ela falou "Talvez ainda não seja a hora de você ler. Ele é um pouco complicado". Eu li e concordei. Não entendi absolutamente nada, mas sabia que era bom.

Ano passado, para a aula de encenação era G.H. e Kafka, "A Metamorfose". E a leitura perdeu o tom inicial de prazer e criação e ficou um pouco burocrática, para mim, pelo menos.

Eu sabia que algumas pessoas não estavam lendo o livro durante o processo (e ao final dele não mudou muita coisa) e por isso, acho que concluí minha leitura com certo ódio, cobrança excessiva, sei lá o quê. Sentimentos que não cabem de companheiros para esse livro. Acho que para nenhum.

Aí, um dia desses, saindo de casa para ir trabalhar, passei a mão nele e o levei comigo para passear. Era a hora de verdade e eu só soube quando terminei de ler. Tantas coisas, tantas, coisas, tantas coisas. Teria a Clarice comido cogumelos? Toda aquela história do Oriente Médio, aquelas visões e aquela mão sem rosto. "Dá-me tua mão!". Uma vez no curso técnico usei esse trecho para uma aula de voz. Só lembro que fiquei de costas e a professora disse: "Que cabelo lindo". Eu não lembrava que o trecho era do livro, só sabia que era da Clarice. E só sei da Clarice que gosto muito. e que G.H. é um livro a ser lido. em épocas diferentes. Cada vez que se abre ele, outra coisa diferentes te salta aos olhos; outra que não tinha saltado há cinco minutos atrás lendo o mesmo trecho



"E que eu tenha a grande coragem de resistir a tentação de inventar outra forma". página 15 Amém.


Agora estou lendo "As Meninas" da Lygia Fagundes Telles, um dos livros que "adquiri" na época da biblioteca, mas fugi dele. E não adianta fugir ? Uma hora te pega pelos dedinhos, olhos, nariz... Hoje li o que a irmã Clotilde disse para Lorena: "O estado de graça de uma alma está mais num estado de inconsciência do que em outra coisa. Gosto muito do pintor primitivo enquanto ele ainda não sabe que é primitivo". Aqui achei a ponta de uma camada a ser descoberta. Na página 149.


O que isso tem a ver com o Speed? Nada.


Boa noite.


"O mundo é seu. Você não é tão presa ao tempo como imagina. Faça uma conexão com uma árvore ou uma planta. É mais importante ser você mesma do que esconder coisas. As ferramentas do artista lhe dão uma chance de balançar e alterar as leis da natureza. Cortar e remoldar a fábrica de realidade." John Frusciante



sábado, 24 de maio de 2008

Como beijar o céu? Começando pelo chão.


Nada de elaborações. O que acontece é que eu não estava feliz.
Escrever tem sido a maneira descompromissada de liberar espaço aqui dentro. Ler, o jeito diário de viajar até o Metrô Brigadeiro. Escrevendo para mim, para mim, só para mim.
Apaguei o último post do fotolog não só porque recebi uma crítica mais enfática e direta. O que escrevi era para mim.
Seria muito estranho, nesse momento, escrever sobre qualquer coisa que não fosse...o que está sendo.
Durante as leituras escrevo. E durante a escrita, sou interrompida. “A minha salada chegou, mas pedi de rúcula. Rúcula. E me mandam alface.” Como mesmo assim. Fico olhando milhares de vezes no celular, para calcular os minutos que tenho até ter que subir. Me perguntando as perguntas que não são minhas. Não é ruim me sentir bem no trabalho que estou, na rotina que estou, sem o teatro em que não estou. Eu ainda estou pulsando.
Aquela história de que eu não queria mais nada, de que eu não tinha vontade para mais nada. É verdade.
Não queria nada do que eu estava vivendo. “Ah que pena, você realmente merecia terminar”. Como assim? Merecimento. Merecer. MERECER. Percebe essa palavra: MERECER; fala sílaba por sílaba e vai ver que ela não é muito apropriada para essa situação.
Aqui não foi o acaso que decidiu por mim, não foi uma luta sem recompensa. A desistência não foi um afogamento e não terminar a faculdade não foi o destino cruel a que os pobres jovens de periferia estão condicionados. Minha condição foi condicionada por mim, no que diz respeito a isso, até aqui.
Teatro. A pergunta não é essa; “Ah, você descobriu que não era isso que queria?”.
A pergunta é por que eu queria tanto.
Sempre foi difícil, há 8 anos tudo têm sido difícil, há 5 eu comecei a aprofundar os estudos, há 1 eu decidi ir para cima, coincidentemente comecei a questionar tudo, há alguns meses comecei a duvidar. “Questione mas não duvide”. Pois então me distancio serenamente para ver de outro ângulo e ir numa camada mais profunda do que a que superficialmente me apossei e me agarrei como última tentativa de não desistir. Tentar não desistir é por si só uma afirmação de desespero.
Desisti do teatro. E ao contrário de todas as outras vezes que pensei em desistir, o pensamento a frase, a conclusão, não vem acompanhada por um choro compulsivo. E olha bem, não me sinto desconfortável quando me perguntam quando eu volto, se retomo a faculdade, se quero montar um grupo, por que disso ou daquilo. Me encaro bem nessa escolha; me descobri uma perfeccionista frustrada, uma inquieta com pose serena e gentil, uma descontente com reclamações cheia de camuflagens engraçadinhas.
Nos últimos meses eu fiz descobertas incríveis, tive encontros delicados com um ou uns novos jeitos meus de interpretar. Abandonei velhos vícios de interpretar. Questionei tantos outros tipos de interpretar. E cheguei no fundo do poço, no pavor, no terror de entrar no palco e... interpretar.
Aos companheiros (aos que gosto e não gosto) de início de TCC, ficaram questões. E não vou colocar aspas entre elas. Falarei em primeira pessoa, já que os velhos hábitos escapistas não valem.
As escolhas estão ai para serem feitas. Lá no início houve propostas, as quais eu me propus também. Mas no meu caminho há um propósito maior, quase etimológico, do que é ser verdadeira. Eu virei um exemplo qualquer, para qualquer coisa, e isso não é de verdade.
“O ator não deve fazer o laboratório do convencer-se”, foi alguma coisa assim que a Marcella disse. Poderia ser Machado, Guimarães, Pirandello e foi a Roma, tão proposta quanto qualquer outra proposta. E a escolha passou a ser...escolhas.
Eu fui uma atriz que me convenci. Me convenci de que realmente sempre fui boa e poderia ser mais e mais ainda, mesmo aos trancos e barrancos, no que eu tava fazendo. Me convenci. Quase numa disputa comigo mesma, sem falsa modéstia “Tudo bem, vocês venceram, vou continuar fazendo isso aqui porque sou boa nisso.”
Só que eu não estava feliz.
E por favor, sem dedos. Ainda vou ao teatro, posso ouvir as intermináveis conversas sobre os laboratórios. Não nos tratem, a mim e ao teatro, como namorados ressentidos que fingem que não se conhecem mais. Até me emocionei numa peça que fui assistir semana passada. Fiquem tranquilos. Andei olhando uns sites bacanas sobre jardinagem, animas domésticos. Está sendo ótimo ELIMINAR A PORRA DO JULGADOR.

Boa noite.

Ouvindo Cindi Lauper.