terça-feira, 29 de julho de 2008

39 não é 38

Odeio fazer compras. Não só porque não tenho grana e tenho que ficar procurando o que se ajuste ao meu bolso. Mas porque além do ajuste financeiro tem o gosto. Não tenho um gosto enjoadinho para as coisas mas, e principalmente desta última vez que me aventurei a comprar alguma coisa, tive a impressão de que quem confecciona o que está na moda tem um gostinho bem esquisito. E quem se adapta à esses conceitos triplica essa esquisitice: a de incorporar a esquisitice alheia.
A idéia era comprar um sapato. Idéia não, necessidade, urgência. O último que tive e usei até semana passada, sucumbiu aos meus 62 quilos e muitos quilômetros rodados por dia.
Fui ao shopping, fingindo que minha intenção era a outra, pensando que assim espantaria de meu foco a irritação com a quantidade absurda de pessoas que se concentram ali às quartas-feiras. Principalmente durante as férias.
Sem me atentar aos modelos, me dirigi aos preços. Um direcionamento flutuante. Na verdade eu estava em choque. Não sabia se meu espanto era por não comprar nada há muito tempo e estar muito desacostumada ou porque as coisas estavam realmente muio caras. Acho que as duas opções se unem bem.
Na verdade eu já sabia que ia acabar comprando qualquer sapato na loja mais barata do shopping e nesta entrei por último. Fui até as promoções. E realmente eles estavam ali, de promoção. Uns modelos até razoáveis.
Estava decidido finalmente, que ali eu iria satisfazer minha necessidade extrema de calçar meus pés. O objetivo agora era achar meu número. 39.
Várias prateleiras e nenhum correspondia ao meu tamanho. É claro que eu já me preparo psicologicamente para este fato, mas é sempre muito triste ver tantas opções de modelos para os ouros números e para o meu...
O vendedor se aproxima (nesta loja tem muitos!) e pergunta todo solícito:
-Precisa de ajuda?
-Sim, preciso, respondo, entre estes aqui tem algum 39?
Ele deu uma risadinha de lado triunfante e encheu o peito feito um pombo.
-O que não estiver aí, com certeza há no estoque.
É claro que não gostei nem um pouco do tom que ele respondeu. Tinha ali embutida uma ironia intimamente ligada ao tamanho de meus pés. Claro que tinha.
-É só você escolher o modelo!
Não gostei nem um pouco dele.
-Tudo bem, vou escolher e já te chamo.
Escolhi e chamei outro vendedor, um mais simpático.
-Por favor, você poderia me trazer um desse 39?
Ele olhou bem para o modelo, bem para mim.
-Tudo bem, só um minuto que eu já venho.
Depois de 20 minutos e três vendedores me perguntarem se eu precisava de ajuda, (sem contar aquele lá que eu não fui com a cara, vir me dizer que tivesse paciência que seu companheiro já voltaria) eis que o rapaz volta sem nada nas mãos.
-Infelizmente não tem aquele modelo 39.
Não podia esperar outra notícia, mas no mínimo que ele me trouxesse outras opções.
-Pode trazer qualquer um daquela prateleira então.
E ele se foi. Mais uns 10 minutos.
-Tenho estes aqui.
Não podia reclamar. Ele me trouxe um ainda mais bonito. Experimentei e nem quis saber dos outros.
-É este mesmo.
Pois bem. Paguei feliz o sapatinho e voltei para casa mais feliz ainda por me livrar daquele pedacinho de inferno no Jardim Aricanduva.
No dia seguinte, pronta para estrear o sapato para ir ao trabalho, conversando distraidamente com minha mãe, coloco o pé direitos. Uma beleza. Problemas para colocar o esquerdo. Tiro o direitos. Coloco os dois lado a lado. Eles não combinam.
-Mãe...me mandaram dois pés direitos.
Dois pés direitos! Não, eu me recusava a acreditar. Não pelo fato em si, mas pela certeza de que teria que voltar até a loja.
-Moça, eu vim fazer uma troca.
-Qual o motivo da troca?
Fiz uma pausa. A pergunta dela não estava preenchida de interesse por realmente saber o motivo.
-Dois pés direitos é um bom motivo?
Interesse repentino. Ela olhou para mim, foi pegando devagar a caixa, abriu e repetiu o mesmo ritual que eu havia feito: colocou-os um ao lado do outro, trocou os lados. Consultou o código do vendedor e o chamou pelo microfone.
O vendedor veio, ela o chamou no outro canto e pediu discretamente para que trocasse os sapatos.
-Vai lá e não deixa que ninguém saiba disso senão é problema para mim e para você.
Fingi que não ouvi e esperei até que ele voltasse.
Ao voltar ele disse qualquer coisa no ouvido da vendedora que coçou a cabeça e sem acreditar que eu ouviria qualquer coisa que não um “Desculpe o transtorno, tenha um bom dia” me voltei para ouvir.
-Sabe o que é moça...Alguém levou os outros dois pés esquerdos. Pode ser outro modelo?
Não, não podia.
-Sabe o que é dona atendente, eu nunca gostei tanto de um sapato, então eu faço questão de que seja aquele modelo mesmo.
Vejam que não é o tipo de atitude que costumo tomar. Normalmente eu soltaria um “tudo bem” e ficaria com àquele modelo mesmo.
-Então a senhora pode levar este outro e aguardar até que os outros pés esquerdos retornem como garantia para efetuar a troca.
Concordei não por isso, mas porque na minha cabeça o fato de querer muito o outro me convencia a esperar.
Voltei para casa, no fundo muito decepcionada. Até um pouco envergonhada de não aceitar o modelo que eu tinha em mãos e que não era propriamente feio. Fui, então, me acostumando com a idéia de ficar com ele mesmo. Talvez tenha sido esta a intenção da atendente malandra.
No sábado, já que era dia de festa, abri a caixa. "Vistam meus pés, belezinhas de Franca". Coloquei o direito...O esquerdo. Bonito até. Mas um pouco...apertado.
-Talvez seja o material e por ser novo também.
Mãe serve para dar boas explicações para o que você sabe que não é nada bom. O sapato era 38.
-Moça eu vim fazer outra troca.
Era outra moça.
-Outra?
-É. Outra. Primeiro eram dois pés direitos. Aí aceitei ficar com este aqui, mas me mandaram 38.
A moça nem quis saber de mais nada e pediu para que o vendedor fosse trocar. Era o petulante, folgado, insuportável da primeira vez.
-Ah, mas não tem problema de ser 38. Ele laceia.
Um ultraje. Ele não sabia mesmo com quem estava falando. Daquele papo eu já estava calejada e mais que treinada para arremessá-lo para bem longe. O papo e ele se possível.
-Sim moço, laceia. Mas para ficar confortável num pé 38 e não para virar 39.
Sem nenhum argumento mais poderoso, ele, o tirano, se dirigiu contrariado ao estoque.
Voltou pronto para dar uma má notícia, com aquele mesmo ar irônico da primeira vez.
-Não tem mais esse modelo que te deram. Mas tem este aqui.
Lá estava ele. 39, com as mesmas fivelinhas prateadas do primeiro encontro. O comprador dos dois pés esquerdos também tinha se manifestado. Mas eu não daria meu braço a torcer. No fundo todo mundo gosta de fazer o papel do consumidor ofendidíssimo. Afinal,um sapato e só um sapato!
-Tudo bem, fazer o que, registre a troca por favor moça.

Créditos: Rauzito - "Sapato 36"

Eu calço é 37
Meu pai me dá 36
Dói, mas no dia seguinte
Aperto meu pé outra vez
Eu aperto meu pé outra vez
Pai eu já tô crescidinho
Pague prá ver, que eu aposto
Vou escolher meu sapato
E andar do jeito que eu gosto
E andar do jeito que eu gosto
Por que cargas d'águas
Você acha que tem o direito
De afogar tudo aquilo que eu
Sinto em meu peito
Você só vai ter o respeito que quer
Na realidade
No dia em que você souber respeitar
A minha vontade
Meu pai
Meu pai

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Indo para o Metrô Carrão

A feiosa de sombra nos olhos: "- Mas você acredita em Adão e Eva né?"
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Mas você tem uma opinião sobre isso ou acredita naquela história maluca de evolução?"
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Sim...Deus...Mas você acredita né?
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Ah que bom..."
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Nada...Isso é coisa de quem não acredita em Deus e quer inventar o que estudar."
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "...Porque no início Deus foi separando o homem e a mulher...foi desgrudando um do outro..."
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Mas o homem tem uma costela a mais que a mulher..."
A pessoa do outro lado da linha: " -..."
A feiosa de sombra nos olhos: "Cê viu que tão construindo um condomínio ali na Radial?"
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Obs: Chegando no Metrô, descobri que "a pessoa do outro lado da linha" se chamava Daniel e era noivo da moça feiosa.


Pessoa "desocupada".


sexta-feira, 18 de julho de 2008

AVENIDA PAULISTA, 900

"Se você também acredita que as coisas boas da vida não se desgastam com o tempo, me dê um beijo"

Ps: Numa cartolina, caneta piloto azul, moço de olhos brilhantes, camisa amarela. Aparentemente um louco. Algum desejo de felicidade que não entendi bem no meio da euforia e de outras reações químicas.





terça-feira, 15 de julho de 2008

Hoje eu quero sair só. Lá na esquina está a vendedora de balas.

Não dá para explicar direito como é se sentir muito feliz e profundamente triste.
Talvez seja difícil, porque a tristeza não foi tão profunda e a felicidade não foi muita. O que aconteceu, pode ser um equilibrio. Precário, mas há possibilidade de ter sido algum.
Acontece que em algum ponto as coisas começam a se complicar, por causa disso mesmo. De um ponto. Um ponto errado no crochê, deixa o trabalho todo mal feito, meio enrrugado. Não sei fazer crochê, mas há pelo menos 20 anos a imagem que eu tenho de minha mãe no sofá, é fazendo isso. Ela desmancha tudo e começa de novo quando erra o ponto.
Mas na vida não dá pra fazer isso.
E nem se agarrar a velhos hábitos, lembranças, sentimentos.
E esse texto já nasceu errado. Atrás dele, ficaram digitadas palavras escondidas na covardia do meu não dizer. As coisas ainda doem, porque viver de acordo com o que a vida exige é difícil. Não porque viver em si seja complicado, mas se inventa paixões, arrependimentos, ambições que não servem de nada, só para complicar mesmo. E a gente acha que isso é vida. isso aí que se vive é de criar calos, que não geram aprendizado. Geram insegurança. Essa falta de rumo que vos fala. O bom de estar perdido? Dispenso a previsão.


A borboleta da ocasião da continuação

Fui muito complicado chegar até o Centro. As obras do metrõ deixam o trânsido impossível até aos finais de semana. Achei que de carro as coisas seriam mais fáceis.
No sinal em frente ao cinema, pensei em desistir de entrar. Não sabia nem que filme iria assistir e de repente me aterrorizou a idéia de encontrar alguém conhecido. Teria que deixar o carro num estacionamento...Não queria admitir, mas estava me arrependendo de ter...pegado o caro.
Acabei estacionando numa paralela à rua do cinema. Lá estavam todas as pessoas com aquele ar que não gosto na entrada do cinema. Não gostaria de me deixar contaminar por sensações como esta, mas é fato; algumas "tribos" me incomodam.
Na fila para comprar o ingresso, achei que iria esgotar na minha vez. Esgotou na pessoa seguinte.
Sentei na poltrona, me acomodei. Filme francês. Me preparei para dormir.
No dia seguinte, passei em frente à casa da qual...peguei emprestado o carro. Tudo em ordem. Pelo menos não encontrei nenhum retrato falado com meu rosto pelas ruas e nem fui alvo de perseguição policial. O que me perseguia era somente a sensação de que ainda havia muito o que ser devolvido, antes que me corpo paralizasse. Os carros continuarão por aí. Da ocasião se faz o que bem entende.



segunda-feira, 7 de julho de 2008

"Me diz o que é o sufoco que eu te mostro alguém a fim de te acompanhar
E se o caso for de ir à praia eu levo essa casa numa sacola(...) pra te acompanhar"
Último Romance - Los Hemanos

O Escafandro e a Borboleta

Ontem roubei um carro. Sabe como é; domingo, nada para fazer. Saí de casa para pegar o ônibus, é claro. Estava meio sem rumo, triste dentro de casa. Vazia. Até meu cachorro foi dar uma volta. Indo para o ponto de ônibus, logo o vi: vermelho, todo lustrado, com as portas abertas e a chave...no contato! Não é um carro que desperte a cobiça de qualquer um que o visse. Um popular. Mas tão redondo, tão acabadinho, tão me chamando. Nem pensei duas vezes. Nem se era certo ou errado. Nem dei aquela conferida típica de ladrão, olhando para todos os lados para ter a certeza de que ninguém estava vendo. Cansa andar de ônibus e na hora fez o maior sentido pegá-lo e guiá-lo livremente como fiz. Nem sei a que altura o dono voltou para a calçada e viu que seu possante não estava lá. Sabem que domingo é dia de lavar o carro, com som ligado no último volume, aqui por essas bandas. Ele deve ter ido atender o telefone. Como não tenho com que falar aos domingos, aproveitei a deixa. É bem estranho dirigir carro que não é seu. Não que eu já tenha tido algum assim só meu. Me senti tomando o lugar de outra pessoa...Não sei explicar ao certo, mas é como se estivesse olhando as ruas, as pessoas com olhos que não são meus, quando na verdade só estava guiando algo que não era meu. Não tenho muita sabedoria, mas fazemos isso com a vida às vezes. Segui em direção ao Centro. Que beleza não estar no corredor de ônibus. Nem aproveitei muito o bem estar de-não-andar de coletivo. Parecia que estava estampado em minha testa: “Roubei esse carro”. A ambulância passou ao meu lado e tive a impressão da sirene querer saltar para me prender. Bobagem, eu sei que era. Sirene não prende e nem era da polícia. Me sentia feito criança que faz coisa errada e apesar de ninguém ter visto, parece que o mundo inteiro sabe só porque é errado. Mesmo assim, segui firme com meu olhar fingido de que sabia bem todos os segredos daquele veículo. Mal sabia o combustível que o fazia andar. Quando saí de casa, pensei mil coisas que poderia fazer num domingo de sol como o de ontem. A primeira coisa que fiz então, foi seguir em direção à casa de um amigo, que há muito não via. Aproveitei para levar uns cds que ele tinha me emprestado e que acabei nem ouvindo. Mas, como gente solteira não para em casa, tive que deixar os cds com o porteiro. Nem falo o medo que eu estava de estacionar o carro ali naquela rua. O lugar que ele mora é bonito de um lado e um lixo do outro. Fiquei com receio de alguém...é, que alguém roubasse o caro. Afinal de contas, não pretendia ficar com ele para mim. Meu amigo não estava em casa, uma pena, deveria ter ligado antes, pensei. Mas não estava num dia de negociações. Queria estar nos lugares e ponto e quem estivesse comigo, muito bem. Incrível como o carro andava bem com o combustível que tinha. Segui para a divisa com a Zona Sul. Ao ver um amontoado de gente e uns caminhões dos bombeiros, pensei ter havido algum acidente mais à frente. Mas me aproximando, percebi que era uma festa. Há quanto tempo não passava por aquele lugar! Não gosto muito de monumentos, prédios históricos, mas ali estava um lugar bonito. Grande, simétrico...lotado de gente! Comemoração do dia nacional do bombeiro. 2 de julho. Resolvi entrar. Logo no início da rua achei uma vaga. Mas não pense que o deslumbre de entrar assim, transitando livre e failmente pela cidade me fazia esquecer o pavor que estava de que alguém me descobrisse. Estacionou ao meu lado o carro de uma família-feliz: filho-cachorro-patins. E eu só. Engoli o choro. Havia muito o que ver por ali com meus próprios olhos. Não conseguia me concentrar nos caminhões antigos. O vermelho deles me fazia lembrar do carro, lá fora, desamparado. E se alguém desconfiasse? Não, não. Como desconfiariam? Continuei subindo aquela rua sem fim. Milhares de crianças desciam no contrário de mim. Era impossível não sentir um certo deslocamento ali. Não conhecia ninguém. Ninguém me percebia. Não dariam falta se acaso me jogasse ali no rio que passava ao lado, ou se sumisse no meio daquelas árvores. Algum guarda faria a ronda para perceber os despercebidos? Na cabeceira da rua, no final dela, não sei como descrever aquela parte em que cheguei, senti que ninguém se importava mesmo. Quem se importaria com um ser humano invejoso, como era eu ali vendo aquela cena? Patins, skates, bicicletas, manobras, corpos em movimento. Pego em minha cintura e me percebo. Sim, me enxergo. Já não sou a mesma pessoa. Muito menos por fora. Cheguei a um jardim que parecia um labirinto. Não entrei. Não tinha o que achar ali dentro e tenho pavor daquele mosquitinhos irritantes que voavam sobre ele. Dei a volta e vi que a entrada no monumento era de graça. Passei a catraca. Ia fechar dali quinze minutos. Para que entrar então? Entrei e não achei nada de mais. Nem de menos. Fiquei procurando uma sala com chapéus que me lembro ter entrado quando criança. Não achei. "Cada cabeça tem seu chapéu". Saí de lá antes que o tumulto começasse, pois estava tudo bem cheio. E eu ainda não tinha conseguido preencher o que faltava. Rodeei o jardim pelo lado oposto ao que tinha vindo e sentei num parapeito. Me deixei aquecer pelo sol, antes que o calor se fosse. Nos encaramos de frente como há muito não fazíamos. Do meu lado esquerdo há uns vinte metros de distância, um casal me encarava. Acho que atrapalhei alguma coisa. Desci do parapeito e virei as escadas. Fiz questão de não passar por onde estavam todas aquelas pessoas se exercitando felizes. Preferi o lado em que menino corria com o cachorro desengonçado. Que pena que os dois vão crescer. Não aguentava mais. Saí correndo, não me importando com o que estava escrito em minha testa. Os bombeiros já recolhiam as parafernálias das comemorações e eu só queria chegar até meu...quer dizer, até o carro. Não achava. Não marquei o lugar onde estacionei. Não lembrava que carro estava do lado. Não sirvo para ter um carro, ainda mais os que não são meus. Nem pensar em pedir ajuda. “Qual a placa do teu carro?”. Não saberia dizer nem o modelo, no momento do desespero. Meia hora de angústia e lá estava ele. Abria porta, sentei no banco e me certifiquei se era ele mesmo, afinal tínhamos pouca afinidade ainda. Dei partida e segui com alivio sentido Centro, novamente. Resolvi que iria ver um filme. Hesitei. Não tem nada mais deprimente do que ir ao cinema só. (Continua...)

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"Debaixo deles, fica o coração?"

"Nietzsche define o niilismo da seguinte forma: "a conseqüência necessária do cristianismo, da moral e do conceito de verdade da filosofia." (...)Ao final, Nietzsche encontra no homem a fonte de seus próprios valores, sendo ela a medida de todas as coisas, surgindo assim a noção de "super-homem". Este ama a vida, cria o sentido da Terra, pois possuí a vontade de potência. O autor acaba por superar o niilismo ao desligar-se da idéia de que a existência seria uma fonte de sofrimento para o homem, como queria o cristianismo. " Fonte: http://www.puc.br/



27/06/2008

-Blá blá blá Seguros boa tarde.


-Quem fala?


-Pollyanna.


-Caiana?? (???????)


- P-O-L-L-Y-A-N-N-A.


-Ah, desculpe! Nossa, você sabe que minha mulher, a Vera, é muito fã do "seu livro"?


-Ah é mesmo?


-Sim. T-o-d-a vez que acontece alguma coisa muito difícil na nossa vida ela pega na minha mão e diz: "Carlos, vamos brincar de "Pollyanna"?". Ai a gente respira e continua.


-(...) E que posso ajudar Sr. Carlos.




Estudava no Colégio Nsa. Sra de Fátima. Plano Collor me tirou de lá e sempre achei que ia voltar. Meu pai também.

Comecei a fazer teatro, achei que meu grupo ia ser eterno.

Quando terminei o colégio, estudava no Mocam e achava que ia entrar numa faculdade pública.

Quando comecei a trabalhar na seguradora achei que ai conseguir pagar uma boa faculdade.

Comecei a fazer o curso técnico, achando que um DRT ia me adiantar a vida para ser uma atriz e conseguir viver do que eu queria.

Entrei para a faculdade e achei que ia desenvolver uma pesquisa.

Saá da seguradora e achei que ia viver bem dado aulas e fazendo testes.

Em 2008 coloquei os dois pés no chão.


Biografia das boas. Nem gasta tanto papel.


Meia negra, enfiada no sapato negro. A bata marrom. A pele negra.

Entrou no vagão. Eu estava lendo, mas levantei a cabeça para ver se alguém iria ceder o lugar nos acentos de cor cinza ocupados por quem não precisava tanto deles. A filha segurava pelo braço. "Senta aí mãe". Ela sentou com cuidado e com os olhos característicos de quem nunca viu ou há muito que não vê, endireitou o corpo para a descida até o banco. Segurava a bengala só com as pontas dos dedos. Negros.
A filha que já tinha se desocupado de ajudar à mãe, fixou o olhar na janela. Ou a direção da cabeça pelo menos, porque os óculos que meteu em cima do nariz não permitiam tomar muita certeza de para onde olhava.
A criança no colo da mãe, do outro lado, na outra poltrona dava as risadas típicas da empolgação de estar num lugar feito o metrô. Empolgação só para a idadezinha dela. Depois passa. Cada risada que a criança dava, os lábios da negra empurravam de leve as bochechas. E as lágrimas começaram a brotar. O túnel chegou e os olhos se fecharam para conter o que não tem cor. E como produz dor um corpo que não vê? O túnel acabou. Demorou, mas voltou a abrir. Rosto sério, congelado. A criança ri de novo, mas o lábio fica imóvel. "Já chegou filha?". A filha se veste com roupas de quem não tem como se vestir do jeito que queria. "Não...tá chegando". E a mãe se veste do jeito de quem não pode dar à ela o que queria dar. Chega a Sé, meu livro abandonado na mão; ela se deixa levar pelos braços da filha, pela multidão ecom os exames ao lado da bengala.