quarta-feira, 17 de junho de 2020

Dezessete de Junho

A volta do Sol. O Sol chega junto. Toda vez que chega tem Copa do Mundo ou mega manifestação. Tem jogo do Brasil ou decido subir uma montanha com meu corpo febril. Esse ano tem pandemia. Em quanto está a saturação? Coloco café na xícara e junto com o líquido desagua a lembrança do sonho inteiro. Esse ano a montanha rarefeita tem picos de oxigênio no subir das escadas com vista para o céu que acham lindo, mas é pintura da Petroquímica. Olá, público? Vocês estão aí! Desculpem, eu estava distraída. Sim, eu falava aqui desse lindo céu de outono. Química vindo de Santo André, sentido Mauá. Seja em menor ou maior capacidade, tem sempre alguma coisa queimando e não cheira bem. Faz o céu, perto da meia noite, ter um clarão, que está longe de ser a Aurora Boreal. Aurora Bimodal? Hora de ouro no terminal. Ouro de tolo que paga cinco reais no transporte. O tolo é valente, paga contente. O touro? O touro é castrado! Há tempos que só tem tamanho e com isso, sabemos que não somos tão fracos. Mas essa noite fui jogada com força dentro de um elevador, junto com um homem fraco e medroso. E um guerreiro chinês. Na verdade, se me recordo bem, foi o guerreiro chinês que nos colocou lá dentro. O homem medroso tinha certeza de que o guerreiro chinês iria matá-lo e eu sabia disso porque eu também sentia o cheiro da morte e não vinha de mim. O guerreiro chinês, percebendo o medo, sorriu levemente, seus olhos ficaram difusos e fizeram com que acelerasse o elevador. Tentei me manter estável, espalmando as mãos nas paredes, mas não consegui mais distinguir se estávamos subindo ou descendo. Quando o elevador parou e a porta se abriu, saímos direto em uma sala enorme, onde havia um banquete de carne crua. Peixes inteiros crus sendo devorados calmamente por um homem que dançava seminu, uma dança sinuosa. Sua cabeça era enfeitada por moedas prateadas e eu soube que ele mataria o homem medroso apenas pela forma que ele nos encarava. Da mesma forma que assim que entrei na sala, identifiquei que toda aquela carne era para mim. Imediatamente segui em direção a um divã, onde estava deitada uma mulher que se fartava do banquete e me fiz distraída frente a oferenda, já que minha lembrança ruim da última farra de carne crua, ainda revira em náuseas minhas entranhas. Nausíaco? Eu sabia que tinha que sair dali. Sabia que minha única função era acompanhar o homem medroso e saber que ele seria devorado. Mas também sabia que só conseguiria sair dali se conversasse com a mulher. Falamos sobre Escorpião. Talvez tenhamos falado algo sobre Sagitário e Virgem, mas o assunto era mesmo a água profunda. Como quem desvenda o que a Esfinge precisava ouvir para nos livrar da Peste, falei sobre os enigmas da morte e do oculto em mim e assim, pude ir embora. Havia uma presença forte, um holograma de um antigo amor. Sua presença era grande e concreta como ele sempre foi, mas nunca percebeu. Acordei em um campo a céu e o sol aberto, o vento e o frio seco. Confusa, pensei estar em Oeiras, mas o o quente-frio de lá é diferente, memória insistente. O que me acordou foi o ar de montanha que já foi mar e não de mar que já foi montanha. Era Bolívia? Eu senti que ao abrir os olhos, algo dava as mãos. Mas não era definitivo, porque todo voo em seu pouso. A sabiá pousa para alimentar os filhotes e o avião parar desovar vírus, terroristas e românticos distraídos. O voo que precedeu a pandemia sonhava com um pouso tranquilo, talvez alguns quilos de muamba e cocaína e eu sonhei com uma velha que me enforcava e apontava para o que parecia ser o forro do teto. Mas como sou imbecil, pode ser que ela estivesse apontando para o céu, para o alfabeto das estrelas, enquanto eu estava preocupada com as goteiras e um mês de infecção urinária. Quantas vezes os quarenta mil sentiram pontadas no baixo ventre? A Velha não me disse. Ela só mandou um menino para segurar a minha mão, que me pediu para que não tivesse medo ao entrar no auditório. Quando entrei, era tudo azul-de-São-Miguel-Arcanjo e havia corpos deitados, envoltos em plástico leitoso, azul e verde, igual aos da época da escola. Cheiro de mimeógrafo 'Por que nos mandaram aqui dentro?". Não foi minha pergunta, mas poderia ter sido se eu não tivesse avistado um rio lá dentro mesmo. Sentei na beira dele. Se houvesse rede, deitaria nela, mas pode ser que tenha servido para carregar algum corpo sem vida. Há alguma música que pode ser ouvida? Sim, toca uma música..."Dicen que por las noches, no mas se iba en puro llorar". Dicen... que tem que refogar o alho antes de cozinhar. E que é bom passar uma café depois. Não é todo os dia que se comemora a volta do Sol na secura. Às vezes é no dilúvio, no mar de gente contra o preço da condução. Por isso, não adianta plastificar os mortos com cores leitosas. O café dessa volta do Sol deve ser sem açúcar.

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Uma atriz

Estudei para ser atriz.
Antes de estudar, eu já era atriz. Eu sempre fui atriz
Eu sou atriz desde que nasci. Desde que inventava histórias dentro da arredoma na praça na beira do morro .Desde que inventei pro Denis que eu tinha um mini buggy amarelo
E inventei que ele era meu namorado
O Denis, não o mini buggy
Mas era tão difícil para alguns de vocês distinguirem quando eu estava ou não interpretando. Eu superestimava vocês como público e achava que vocês conseguiriam saber.
As quebras, o distanciamento foram levados. Tanto, que fui pra coxia. 
Brecht não entendeu
Boal fez que esqueceu
Fiquei assistindo
Fiquei assistindo vocês e vossos instrumentos desafinados
Vossos corpos frágeis
Vossas masculinidades
Frágeis?
Passivo-agressivas?
Boa aluna, aprendi a educar (?
Tolerar
Camuflar
Aprendi a ser domada por ela, vossa comunicação não-violenta.
Aprendi a ouvir que vocês não queriam que eu fosse mais do que vocês
Aprendi a ouvir vocês dizerem isso
Aprendi a ouvir que vocês descobriram isso
Que eu podia ser mais que vocês e isso vos causava medo
Aprendi a vos exaltar diante de tal descoberta
Para não ter que ouvir o sinal do horário de saída
O sinal para nunca mais voltar
O sinal de que aquela lição não era a minha
Mas segui vos aplaudindo
Tanto que hoje, nem consigo destilar o veneno que é vosso, por direito.
Você, que é tão menos que eu.
Sim, eu sou melhor que você.
Aqui não tem bandeira branca!
Não tem mais a vermelha...
Nem por isso você poderá dizer que fiquei em cima do muro
Porque desde sempre, quando eu não quis mais...
Você sabe!
Eu sou uma boa atriz.





domingo, 7 de junho de 2020

Tentar
Tantatio
Tentação
Tentando
A tentar
Escolhi ficar mais que sete ou oito dias e noites no fundo do mar.
Você, aí do outro lado, me enviou um canto que dizia: já está há tempo demais por aí, é hora de voltar.
Mas sei que você não falou isso só para mim. Sei que enviou os mesmos sinais para todas que ousaram ficar a uma distância segura de você.
Te disse que iria sair para compor meu canto. Estou de volta ao meu lar, após mais de sete anos do que chama por aí de azar.
Posso escolher o nome que eu quiser, agora que aprendi a respirar debaixo d’agua e valorizo, mais do que nunca o oxigênio. Sim, eu subi para tomar algum ar. E cada vez que mergulhava e ia mais fundo, descobria que poderia ir ainda mais. Você não pode ouvir daí, mas tá saindo música daqui. E você não ouve, porque saturou os ouvidos.
Eu te avisei.
Sei que isso te deixa naquele lugar de criança que sabe que também pode, não quis tentar e ouve dizendo "eu sei, eu sei, eu sei". Mas não escuta.. Uma vez, você falou que era preguiça. Mas secretamente, nós dois sabíamos, no silêncio que guardamos camuflados por deboches, que o nome certo da coisa era medo.
Medo de ter que dominar o ar, ir mais fundo e parar de fazer tempestade em copo d’água e respirar no fundo do oceano.
É escuro. Mas guarda uma beleza imensa.

#mulheresquecorremcomoslobos #peledefoca #peledealma #try

quarta-feira, 21 de novembro de 2018

Teaser - Clipe | O Enforcado

Vinte e dois de novembro, o sol entra em Sagitário., o Centauro, que segundo a mitologia grega tinha Quiron como rei.
Quiron, o curandeiro, o semideus que aprendeu com sua ferida incurável o elixir para todos os males.
Mas não vim aqui para falar dele.
Vim falar do Enforcado
"O enforcado"
A carta do tarot, é assim: dependurada numa árvore pelos pés.
Que horror!!
Não, nada disso. Olha bem para o semblante dele: em todos os tipos de tarot, o Enforcado tem uma expressão serena, tranquila. Como pode?
Chega mais perto. Olha direito. Silencie!
Nada é o que parece ser.
“Lembra quando você era criança e ficava de cabeça pra baixo até ficar vermelho”, me perguntou a astróloga. Lembro. Era bom! Só que eu escolhia. Já o Pendurado... quem o colocou ali?
Mas... quem disse que não foi o Pendurado quem escolheu estar ali?
Chega mais perto...
Ele sabe e está te dizendo: espera e aceita. Quando se está no meio de uma tempestade é perigoso se debater, você pode cair, se afogar. Tem umas coisas boas no meio desse caos. Ele sabe que apesar de tudo, ainda vale a pena seguir quando a tempestade cessar. Respira e olha direito. Sem autopiedade, o Enforcado sabe que não é sua tarefa consertar o mundo inteiro, mas é sua obrigação revisar a si próprio e esperar. Só assim a corda vai afrouxar. Só respirando os pulmões serão bem oxigenados nessa posição. Seu cérebro, nesta posição, está sendo bem irrigado, não tenha medo. Lembre-se de que nada é o que parece. O Pendurado aceita ser parte da árvore, alimenta-se de sua seiva e quando finalmente puser os pés na terra colocará em prática os lampejos de idéias que só um cérebro que foi bem irrigado pode ter.
Quando a tempestade passar abra a porta e deixe o sol entrar. O solo estará fértil depois da enxurrada.
E deixe entrar “o Enforcado” da Versus Mare que será lançada amanhã, 22 de novembro junto com a entrada do Sol em Sagitário, o grande curador do zodíaco. E faça como ele: aponte sua flecha para o céu.


sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Desninguém

Amo poesia. Mas dizia que não gostava, porque se admitisse o amor... seria fraqueza?
Por outro lado, aos que amei, sempre declarei meu amor. Sempre. E nunca foi segredo. E por isso mesmo me chutavam o calcanhar. Fraca?!
Fraca sim!
Quando tive dúvidas, demonstrei as dúvidas.
Quando não quis mais... não quis!
Ah! Que maravilha, então... ser eu?
O rumo desse texto era dizer que seria melhor ter amado a poesia, declarado meu amor desde o início, ao invés de amaldiçoa-la... Mas veja só, que a medida em que as palavras saem, outras verdades nascem e é bom ser eu assim, descobrindo esse amor e um pouco mais de ser eu.
Não estamos bem, Kaká. E olha eu aqui, direcionando o texto para alguém com nome! E não para nenhum desninguém, para destilar rancor. As relações também se alimentam de rancor. Há relações que se alimentam de sol. Mas outras crescem melhor à sombra. Viram carnívoras, até chegar ao ponto de que ambos viram carolas do interior, soltando seus venenosos cometários sobre os "amados" até para desconhecidos, criando fakes, anônimos ou mandando recado por aquela amiga...que bem, alimentava o ódio por poesia.
Amo poesia, Kaká. Amo!
Antes eu tirava inspiração de qualquer ferro retorcido. Depois tirava inspiração de um abismo imenso. Depois fiquei com medo de escrever porque achava que tava muito feliz para isso. E agora... depois daquela dor toda, depois de passar por tudo SOZINHA... amo poesia. Vou escrever pra sempre que amo e amo sozinha, porque ninguém vai amar do meu jeito e tô aqui sozinha e sozinha vou ficar até me acabar de amar.
Noite passada sonhei que um homem me beijava. Era um beijo lindo, Kaká. Noite retrasada sonhei com uma exposição de arte e que me roubavam os chapéus...cada noite meu inconsciente quer fazer poesia comigo. Até roupa de cangaceiro pendurada em árvore já pediu pra virar escrita...
Tô aqui pra lhe dizer, Kaká, que nada vai nos salvar dos dias ruins. A poesia não salva, mas sangra bonito num papel...ou num blog...quem sabe costumes antigos podem servir como antídoto... uma anestesiasinha...um remedinho amargo no início...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Enquanto troveja

Onde é a estrada?

Quem me diz onde é?

Onde é?

Me diz?

Quem me diz onde é a estrada?

Queria que fosse você. Queria me acompanhasse na estrada. Que me dissesse tudo oq ue eu precisava ouvir. Queria que me mostrasse onde eu tinha que pisar. Queria que me dissesse qualquer coisa.
Mas não era você quem tinha que me dizer.
Não era ninguém.
Na hora daquela dor absurda, minha mão só pode apertar o ar. Já apertou o ar bem forte? Eu apertei.
E dói.


sábado, 7 de maio de 2016

Eu precisava descer aquela escada que vinha de lugar nenhum. Estava de maiô,acho.Nunca tive um maiô de verdade. Quando pequena e ia à praia, minha mãe colocava o colant do ballet.
Mentira. Devo ter tido um maiô, quando só tomava banho de rio.
Aí, começamos a ir à praia e odiava com todas as minhas forças aquele colant. E o balet. Também odiei a praia por um tempo.
A escada não parecia muito segura. E eu sentia muito medo a medida em que ia descendo.Como o medo que sinto das grandes alturas. Era um medo de altura ao contrário. Crianças subiam e desciam da escada e eu me agarrava com mais força ao corrimão, até que estagnei. Um menino pulou.
 "Agora você tem uma foto do seu salto". Senti mais pavor de ouvir isso,do que de correr antes de pular. Era a confirmação de que eu sempre estive sozinha, desde o início, desde o dia em que quebrei os copos na parede. Também fiz um bolo de chocolate.
Meu medo se resumia a entrar na água. Era uma água tão limpa, tão azul. Não era muito funda. E se eu estava ali, deveria entrar. Não tinha coragem de voltar e subir. Parecia que a escada ia desabar. Enfim, quando coloquei o pé na água, anoiteceu e uma porção de policiais vierarm pra me prender.
Espero que um dia me soltem.

terça-feira, 22 de março de 2016

A melhor droga que usei durante meu namoro mais longo ... e a única também, foi ouvir 'Dark side of the moon' em qualquer ocasião.
Depois que o namoro acabou desastrosamente, tudo o que usei foi pra tentar tapar o vazio.
Hoje lembrei que uma vez tentei usar 'Dark side...' no começo de um relacionamento em que decidi apostar todas as minhas fichas. 
As fichas acabariam e não tenho mais trilha sonora.
Agora, tentando me achar nessa escuridão, agora que abdiquei de drogas leves e pesadas, entorpecentes e relacionamentos de qualquer tipo, agora que só tem vazio... O vazio de sempre, aliás... 
Agora...  o que adianta ficar olhado pro lado da lua que tem luz?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

O deus das pequenas coisas

Queria ter agradecido à alguém pela semana difícil.. "Obrigada à todos os envolvidos". Me imaginei ganhando o Oscar quando a semana acabou. Mas somente hoje me dei conta de que não era à alguém. Era à algo. Que sim, se tornou alguém.
Quando comprei o livro, foi por causa daquelas três páginas que li, enquanto o ônibus balançava: "Pode ler, vou ficar em pé".Tive aquela sensação, pouco modesta de que eu poderia ter escrito aquele livro. Sim, eu poderia. mas não fui eu e me deu enjoo. Seu braço quebrado, a gente chegando no hospital. Nunca mais eu leria o livro.
Não leria, se eu não romantizasse coincidências. Jamais atravessaria a cidade para fazer um exame. Atravessei. Jamais falaria com uma pessoa de olheiras tão profundas. Falei. E você estava lendo um livro de uma indiana. E eu um sobre a Índia. Como não romantizar?
Deve haver um jeito. Vou aprender.
O ano virou e fui lá: "Moço, você tem esse livro?".
"Quando terminei de ler, fiz assim...". E a imagem do seu corpo fazendo a cena me acompanha a cada página. Nada, Nenhuma saudade, fique tranquilo. Não coloque isso na história que você irá contar para as moças. Revivo seu gesto porque ele faz sentido a cada parágrafo, a cada frase que mando para amigos. "...assim" e volto páginas para ler de novo... o sonho de Ammu. O bafo de Ayemenem... que poderia ser o bafo de Macondo. Ontem abri "Cem anos de solidão", como quem abre um oráculo, só pra sentir "o bafo". Uma aranha bem pequena saiu de lá. Fui até a janela pra jogá-la no jardim, mas ela pulou e ficou pendurada na teia que fez pra fugir da página em que Úrsula se assustava coma previsão de que seu marido morreria.
A aranha pulou para a esquerda: "Não desvie, volte para o bafo de lá".

Já previa o que aconteceria comigo. Tanto que o larguei assim que comecei a leitura. Um dia, fingi que era mais uma visita despretensiosa à livraria e numa prateleira qualquer de alimentação... "Você e seu sangue". Tinha certeza de que aquele livro me salvaria.
Leitura banal, acabou em um dia. Tive que voltar às "pequenas coisas".  Sim, sempre volto para as coisas que sei que vão me devastar... Voltei ao fantástico da Índia-politeísta-comunista-burguesa-machista.
Só hoje, quando me vi sabotando o final da leitura (fico atrasando o fim da leitura, dando voltas para que não acabe, porque sei que ficarei solitária sem aquele sofrimento), só depois de reviver uma centena de vezes seu-gesto-de-voltar-ao-início-do-livro, foi que me dei conta de que era ele!
Era ele!
O livro que me afundou numa tristeza sem fim a semana-toda!

E foi ao ler o sonho de Ammu... foi ao ler Ammu em frente ao espelho. Foi ao deixar meu olhar cair no vazio, enquanto o ônibus passava em meio aos sons das panelas e buzinas que me dei conta.

Tinha uma formiga entrando na campainha de casa quando abri o portão. Resolvi agradecer à ela pela semana. Poderia agradecer à você, que foi quem me fez chegar até o livro.
Mas a formiga... não me disse que eu tinha uma visão medíocre de mim mesma,só porque eu não quis ficar com ela.

Obrigada formiga!

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Veja bem. O que está dito, está dito. O que está escrito,está escrito. Há muito mais o que escrever. Mas ainda preciso amadurecer como fazer isso e contornar suas criticas óbvias que partem do seu incomodo óbvio. Eu fiz, te incomoda. E veja bem,novamente. Não me incomoda o que você diz. Me incomoda minha incompetência em te fazer crescer. Sim, minha arrogância me fez achar que eu te faria crescer. Que você mudaria o tom. Você não mudou, me desgastei, mas ainda estou aqui, tentando. É claro que com a psicologia de boteco que adquirimos, sabemos os dois que estou tentando mudar a você, dentro de mim. Resignificar o escroto,mentiroso, manipulador e ...faltam adjetivos pra nomear tudo o que você se tornou.
dizem que na quaresma a bruxa tá solta. Ela veio aqui e falou cada coisa. Mas cada coisa, absurda! Não leve a mal, mas já que ela se soltou, o verbo também quis sair. e tá saindo com voz grave. Prefiro assim. Tá bem elegante e suave. Acidez controlada e uma pitada de dublagem de filme americano. Sucesso de bilheteria.
Quando você me leu pela primeira vez, achou que eu era um homem. "Porque escrevia muito bem", você disse. Como um anarquista, você me saiu um belo machista, desde o início. Como eu ainda estava fascinada pelo poder de ser melhor que um homem, ignorei o alerta. Mas aí, você descobriu que eu era uma mulher. Quis trepar comigo! E trepou. Como num passe de mágicas, o que eu escrevia passou a ser ácido demais. Pesado demais. Autoral demais e adolescente. O bicho machista ganhou forma e viu um passado que não queria ver como não tendo pertencido a ele.
Estou voltando no assunto sim, porque ele sempre volta. Você muda a cara, cresce a barba, muda o cabelo, mas o assunto é o mesmo. Diz que com a minha escrita, não dou chance de defesa. Que estou sempre na esgrima. Se você não tivesse começado a briga eu não teria levantado minha espada. 
Voltarei à psicologia de boteco. E investigarei em que momento você ganhou essa forma. Talvez tenha sido quando eu sumi. Queria ver você crescer. 

Alcaparras- Parte II

Era pra ser sobre alcaparras. Mas pode ser sobre gatos também. Tão indigestos quanto. Dá pra entender que é uma metáfora né? Não como nem comeria gatos. Mas quando chego perto deles, é como se os tivesse engolido vivos. Começam a arranhar minha garganta,impedem minha respiração e me fazem querer bota´-los pra fora a todo custo. Mas ficam lá me arranhando,impossíveis de digerir. Como as alcaparras.
Por isso, assim como faço com elas, não peço gatos quando vem o cardápio.
Dei sinal e ele também iria descer. Tinha muita barba e nenhum cabelo.Sacolas na mão. Se despediu das moças e uma delas disse:

- Como tenho que te chamar, mesmo?
- Matilde!

Quase tropecei ao descer do último degrau. Olhei feio pra ele, que nem me viu. Olhei feio pr'aquela careca mais afeminada do que eu suspeitaria quando ele subiu.
pensei em tomar nota, mas não precisei. esse tipo de coisa gruda que nem chiclete derretido no asfalto quente da Avenida Paulista.


sábado, 6 de fevereiro de 2016

O sol quis aparecer, mas como era ocasião de confiar nas sorte,fechei os olhos e o escondi de volta no monte.

Saltou um coração!
Assunto desses que se tornam difíceis de falar,em tempo de medo de parecer piegas, banal e com pretensões de auto-ajuda. Tempo esses sempre vividos por essas bandas.Onde o amor sempre tem que ser testado, sem o objeto amado saber que sem viver uma grande saga, não passaria no teste.

Mas como não foi só o coração quem pulou, entendi depois que eu estava sendo testada: havia uma grande casa. E essa casa precisava saber se eu era digna de entrar e habitar nela!

Como amissão era muito difícil e sufocante,precisei sair. Sair mesmo,assumidamente largar tudo,como sempre! E tinha uma garça me esperando. A mesma garça que um dia me fez aprender o que era proto cooperação.

Voltemos o coração.

sábado, 30 de janeiro de 2016

sobre um ou dois arrependimentos


Mas você sabe, você sabe
Você sabia quando disse: eu sei que por você essa historia já teria acabado
Mas veja como você, apesar de inteligente, sempre foi incoerente:
Se isso fosse verdade, por que a história continuou?


Como fazer pra isso chegar até você? Você sem rastro, você sem digital.

sábado, 16 de janeiro de 2016

O julgamento, o ego e a torre

Fazia uns anos que não a via. Até que ela voltou de vez ao país e quis sair pra conversar. Mas não me comovi e preferi ficar em casa, dei uma desculpa.

Ontem, estava andando por uma rua muito estranha,mas de lugares conhecidos: casas,escolas,bares e ela estava vindo na direção oposta. Pensei em virar o rosto, fingir que não a vi. Percebi que o corpo dela queria o mesmo. Mas não teve jeito.

- Oi... Que coincidência te encontrar aqui.

E abriu aquele sorriso honesto ,que me incomoda. Sei lá. sempre gostei dela. Mas hoje posso afirmar que aquele sorriso me incomoda. E tem outra coisa: as linhas de expressão na testa! Quando vi aquelas linhas da última vez que ela esteve aqui,quis sumir! 

- É, muita! Estou dando uma volta, arejar a cabeça.

- Posso ir com você?

Claro que não! Mas já era tarde. Ela deu meia volta e começamos andar na direção do nosso antigo bairro.

- Faz tempo que tô querendo falar com você. É que eu saí algumas vezes com o Fernando estava querendo te contar. Tô meio gostando dele.

Tinha um cachorro acompanhando a Luciana. E até agora não sei se aquele cachorro era dela,se era da rua e porque diabos ele tava acompanhando a gente. Quando ela falou do Fernando foi como se um túnel de vento abrisse nos meus ouvidos. E não foi porque eu já tinha gostado muito dele. 

Depois disso, não me lembro muito da conversa. Só dos muros velhos, pixados,mal cuidados que apareciam no caminho.
Até que chegamos numa rua,onde todas as casas tinham escadas enormes até chegar na entrada. Lá em cima estava o Fernando. Dizia palavras de ordem, com aquela cara ensebada de suor,bem mais gordo e aquelas roupas mal cuidada de filhinho de papai que quer chamar a atenção. Me deu vontade de contar pra Luciana. 

- Vamos subir?

Que eu já tinha gostado dele,ela deveria saber.  Senão, porque teria dito que queria me falar dele, naquele tom de amiga confidenciando algo constrangedor? Não era constrangedor! Não Luciana!constrangedor era eu não saber se deveria te contar ou não o que o Fernando fez!

Chegando lá em cima ele me olhou e veio me cumprimentar. Do mesmo jeito, com o mesmo ar de "deixar o passado pra lá" de quando o encontrei no metro.

- Eu posso esquecer tudo,Luciana. Menos que eu sei que foi ele quem matou aquela moça. Foi culpa dele sim. E foi ela quem me disse... Sim,ela! Mas quem acredita que os mortos vem falar as coisas depois? ela veio um dia e tava confusa, Contei pra ela o que aconteceu e ela chorou muito. Depois de uns meses ela voltou e disse que lembrava o que tinha acontecido. Mas ela tava com raiva! Todo mundo o tolera, porque ele se faz de coitado, virou ativista. Mas sabem que no fundo, alguma responsabilidade ele teve. Sim, foi sem querer, mas foi ele! E quando eu cheguei perto de descobrir isso, com provas e fatos, ele começou a falar mal de mim, que eu era louca, que ficava no pé dele querendo casar. Disso eu esqueço, mas do que eu sei, não!

Ensaiei esse texto mil vezes no espelho de casa, depois que voltei daquele encontro infeliz. Mas espero nunca mais ver Luciana. se disser isso pra ela, vai dizer que estou com ciúme.


domingo, 3 de janeiro de 2016

Arcano 13 e a Casa 8


"A Casa 8 está associada às grandes transformações, às mudanças e à sexualidade.  Nesse setor é posta à prova a capacidade do individuo para se transformar e regenerar; reavaliar seus valores; gerir os bens em sociedade, justamente naquele ponto em que ele forma uma união intima com outra pessoa. Representa a morte em si ou a morte do egoísmo.
Essa casa engloba os conteúdos do Inconsciente Pessoal Reprimido: acontecimentos emocionais dramáticos ou traumáticos que, por uma questão de saúde mental, permanecem adormecidos."

A morte como acontecimento no primeiro dia do ano. A morte,o enterro de um ancestral, a morte da terra, a morte fertilizando,a morte como um campo para crescer.E tem pássaros cantando ao fundo, o som de uma mata não muito densa,no meio da cidade e  imagem de pessoas fotografando os monumentos. Um mini galinha chega perto.Ela vai bicar meu pé?

- Andei lendo as coisas que vocês escreve. Pra quê falar tanto de morte, menina?

Não lembro a resposta que dei. Mas lembro que sim, escrevia muito sobre morte, morrer, quem tinha morrido. Mataram um garoto na escola, cinco tiros e eu nunca vou esquecer o silêncio que foi no dia seguinte. A escola cheia de gente no pátio,o culto ecumênico, ninguém falava nada. Era um silêncio ensurdecedor. Depois teve outro que se matou, se jogou de um prédio.Mas esse ninguém deu o silêncio como reverência. A morte dele foi ruidosa, ele preparou um espetáculo. Escrevia sobre essas mortes rondando,sobre as mortes que rondavam minha cabeça de menina. Sobre quantas vezes as pessoas que eu gostava morriam na minha cabeça, só pra eu ir me acostumando com a ausência.
Um dia me enchi. Não de falar de morte, mas da minha mãe lendo tudo o que eu escrevia! Uma vez ela escreveu no meu diário!
Botei fogo em tudo. Menos no diário, que passei a levar na mochila que num belo dia foi levado por um assaltante... A mochila apareceu no dia seguinte, junto com meus documentos. Mas meu diário não.
No dia em que botei fogo em tudo, meus pais ficaram preocupados. "Será que ficou louca de vez".
O Louco é o último arcano. E comecei pelo 13. Cada um compõe sua jornada heroica, começando por onde lhe convém, por onde lhe dá mais força.

"Ao passar por águas tão profundas, nunca mais seremos os mesmos. A influência da energia do Escorpião nos leva a perceber também tudo aquilo que já não serve mais, que está “morto” e precisa ser descartado. O tempo de Escorpião é também tempo de desapego".

"O significado de a Fênix queimar a partir de seu fogo é a transformação interna propriamente dita, uma vez que sua energia não está mais ativa na forma antiga de ser e, portanto, precisa queimá-la, reduzindo-se a cinzas e só assim encontrará sua essência. O fogo escondido nas cinzas se manifesta quando renunciamos aos chamados do ego, para darmos vida e fogo aos apelos da alma; esta é a germinação da nova Fênix, é a renovação."



sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

All Apologies

Jurava que já tivesse escrito um texto com esse título ou contendo algum trecho da música do Nirvana.
Ontem depois de assistir ao documentário sobre o Kurt Cobain, decidi escrever.Não sobre o documentário, nem sobre o Kurt, nem sobre as viagens que fiz ao acompanhar o roteiro, nem sobre o Nirvana (nos dois sentidos). Mas sim, porque é injusto pra caralho usar um cara como ícone e não chegar nem aos pés dele. Não em qualidade artística,mas em auto destruição. Somos meros voyers da destruição de Kurts e Amys e não nos damos ao trabalho de ir fundo em nossas dores de cotovelo, quanto mais nas de estômago,provocadas por profunda sensação de rejeição. Somos fanfarrões, sim. exibimos nossas desgraças em redes sociais. Quais desgraças? Nossas posições políticas, nossas horas perdidas ao despertar apressados de manhã. Nada demais. Nada que nos faça gritar comas víceras, nem escrever enlouquecidamente,nem pintar, nem fazer filho com um amor de doer e querer morrer e viciar na picada da droga que te faz aguentar todo o circo que se formou ao redor de si. Sádicos? Não, nem um pouco. Amadores. E mal sabemos pedir desculpas.

domingo, 25 de outubro de 2015

às vezes o cara volta

De novo, essa noite.
Ele veio e me ofereceu um. Mas era enorme e estava em brasa. Parecia um tijolo mesmo e a seda não segurava. Tava muito seco. Deixei de canto e caiu em cima de uma almofada, que ficou em brasa também. Ele tava mais moreno, rosto suado, com o olhar baixo, de quem carrega aquela culpa descomunal de ser responsável por uma vida ter acabado, Fez um menor pra mim. Puxei a fumaça uma, duas, três vezes e nada; como era no princípio.
Mas no princípio não era aquele rosto que ele tinha.
Quando saí do quarto, estava ele lá na rua, com o rosto mais recente.
Saco!
Bradava o quanto tinha me ajudado, aquela coisa de menino mimado que não aguenta uma decisão concreta e que pra tudo quer propaganda exagerada do pouco que fez, principalmente quando acha que não teve reconhecimento nenhum. Comecei a bater nele e o joguei pra dentro da garagem. Ou pelo menos, é nisso que quero acreditar.
Foi anoitecendo e o cara não ia embora. Ficou com o rosto de dois meses atrás. Aquele que exercita mais os músculos. Enquanto flertava a contra gosto com ele, alguma coisa bateu forte e quando vi, já era outro cara que tinha acordado comigo. Quer dizer, era o mesmo, mas o rosto era aquele obscuro, de quando eu tinha 17 anos.
- Como você entrou aqui? Você usou camisinha?
Ele riu e disse que não tinha certeza e perguntou porque eu estava tão brava.
- Usou ou não usou?
Vestiu a calça e saiu.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Adúltera

Fechei os olhos e assim que comecei e dirigir o carro, um homem conhecido entrou na minha frente com algo na mão. Um bastão de ferro, talvez. Não sei se queria me assaltar, mas o fato de entrar na frente do carro, não me deixaria seguir. Não lembro se segui, mas meu coração parecia que iria explodir, quando abri os olhos. Não queria acreditar que em menos de 10 minutos de olhos fechados, algo tão terrível pudesse acontecer. Depois que o coração se acalmou, fechei os olhos novamente e do que aconteceu dessa vez, só ficaram poucos flashs.
"Você sabe onde se perdeu".
Não sei e odeio enigmas.
Mas fui revirar ossos, rever textos mofados e... continuo a mesma. Palavras de falsa esperança, uma ironia grande diante da possibilidade de viver algo muito grande, uma tendencia forte e cultivada a toneladas de adubo de se autodepreciar, para ganhar mais louros. Uma modéstia forjada na culpa católica.
Sendo severa comigo mesma, impeço que outros sejam. Impeço? Não!
Gostaria de acreditar nisso, mas acabo fazendo com que ele me encontre, mesmo quando entro num carro novo. Esse homem conhecido, um dia, revirou meus e-mails, minhas mensagens, me massacrou porque eu queria ser livre com meus amigos. Teve outro dia que ele me pediu para apagar um texto que escrevi numa página de fotos que eu tinha. Disse que aquilo era muita exposição. Ele também falou que eu não poderia usar um decote, numa corrida de carros. Ele fez um escândalo quando eu sambei, ao lado dele, durante uma festa de formatura. Ele se recusou a me dar a mão enquanto descíamos uma montanha. Ele usou, um milhão de vezes, a desculpa de que "eu era muito pra ele"... mas ficava feliz, quando eu desistia dos meus compromissos para estar nos que eram só dele. E foi mais de um milhão de vezes que ele me chamou de louca. Quando não me entendia, quando eu o repelia, quando via minha alegria, quando eu cuidava das coisas que eram minhas! Louca, quantas vezes louca disse e louca eu deixei que me resumisse. Quantas vezes louca me disse e louca deixei que me freasse? Louca deixei que se aproximasse, que visse meu medo e que ao final, quando finalmente me rendi, louca me deixou porque  outra era mais calma para andar de mãos dadas em público e montar apartamento. Quando não te quis, virei sacana, quando você não me quis, finalmente aprendeu o que é melhor pra si. Esse cara, um dia, duvidou que eu viajasse e quando viajei, me chamou de louca. Quando finalmente se encorajou a viajar, fez um filho com outra. Esse cara era casado quando me cobrava a senha das redes sociais, quando me trancava na sua masmorra na zona sul e poluía meus ouvidos com seu sotaque. Esse cara nunca assumiu um compromisso, mas quando soube de outra intenção minha, me chamou de traíra. Esse cara quis me dar um monte de coisas que não pedi e quando eu disse que não queria mais nada, me chamou de mal criada, de ingrata. Encontrou seu jeito de me chamar de louca e quis me comover dizendo que seríamos felizes, enquanto arrastava seus trapos pela rua. Esse cara ficou dias sem me escrever, sem me dar uma notícia. Esse cara terminou comigo por e-mail, com palavras, com mensagens que nunca mandou, com fotos postadas com outra moça, com coisas ditas pra outras pessoas. esse cara me chamou pelo nome de outra mulher, me condenou por coisas antigas e esqueceu de limpar os pés cheios de lama antes de entrar nos meu passado.
Nunca pedi nada pra esse cara... E a loucura consiste exatamente nisso. Sempre fiz questão de mostrar que eu não precisava e que pelo contrário, eu poderia ajudar, ajudar, ajudar até morrer.
até que um dia.... pedi.
e o que ouvi foi um grande silêncio, uma enorme reticência.
Depois veio um 'Não dá'.
Um buraco abriu no chão e esse cara caiu lá dentro. Achei que tinha sido eu, mas foi ele mesmo. Doeu ver o buraco abrindo e ele ali, finalmente desaparecendo. Ele ainda tentou sair um dia, quando eu disse que queria conversar. ele disse que eu tava muito "Janis Joplin¨... disse ainda, me vendo resolver uma questão difícil da minha vida, sem saber o quanto aquilo significava, que finalmente eu "tinha tomado vergonha na cara".
tapei o buraco do chão e somente diante disso é que sobrou espaço para ver o tamanho da ferida que ficou em mim. E não dá pra saber ainda o que fazer com ela. Não adianta se demorar tentando descobrir quando começou, mas sim o que fazer pra ela não ficar maior. Não dá pra saber em quem confiar, são todos suspeitos. Se esse cara pulou na frente do meu carro essa noite, é porque alguém deixou ele sair. E se ele tá bravo, vou ter que blindar meu carro. Tem um pacto sendo estabelecido com uma mulher que ainda estou descobrindo. Ela precisa ser fiel à si mesma, cuidar de si, pensar mais, sentir também. Talvez isso seja uma esperança de casamento verdadeiro.

domingo, 18 de outubro de 2015

Sexo, drogas e rock'n roll

Não se preocupe, querida! Meu negócio é só sexo, drogas e rock'n roll.

Mas depois de dizer isso, não vou conseguir dar o último gole e depois do primeiro "pega", cairei numa "bad" interminável. Não se preocupe, mas também não conseguirei curtir a melhor banda do festival e nem louvar o som das antigas. E sexo? Bem... nesse dia eu vou dizer que está muito calor e vou sair correndo. Tem um convite de casamento com o nome da minha namorada no chão do carro e preciso correr pra pegá-la e nos arrumar como lindos pares de vasos, posar para fotos e... Não, não! Não há problema nenhum! Posso ficar com você, mas falarei com ela as escondidas enquanto estamos juntos, porque você sabe como é né? Meu negócio é só curtição... mas vou dormir agora, já são oito da noite. não fique triste, gata! Temos que ser igual ao Pelé e terminar as coisas no auge. Boa noite.
Gosto de pessoas que ficam em cima do muro. Elas são felizes e podem inventar as versões que bem entendem das histórias que viveram, afinal, ficaram em cima do muro e não tem responsabilidade nenhuma de nada!

Agora, as pessoas que tomam posição, essas se fodem, são loucas, vilãs, desequilibradas! Essas eu não gosto.

Gosto quem fica em cima do muro. Ainda mais quem lá de cima, fica posando de b@m moç@ e tratando os outros como coitados e vítimas das situações, poque querem que todos sejam como eles: gatos de hotel. São personagens felizes!

Agora essas que ficam deprimidas, tristes, que se sensibilizam com tudo. Odeio! ODEIO! Ainda mais as que precisam de ajuda! Monte de imprestáveis!


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um dia, pulei de muito alto, mesmo tendo muito medo. Afinal, era um lugar lindo e quando eu voltaria ali de novo?
Do salto mergulhei muito fundo, mesmo tendo muito medo. Afinal, a água tava ali pra me amortecer, pra me envolver depois da queda. Ofegante subi.
Sentei, parei e não acreditei no que fiz.
E acabou.

domingo, 4 de outubro de 2015

- Por que você fez isso?
- Não sei, doutor! Só sei que fiz! Digitei o nome na caixa de entrada e estavam lá todas as mensagens de seis, sete anos atrás. E essa com a data de hoje, só que de 2009, me pedindo pra mudar, pra não desistir, pra sonhar. E falando do manjericão.
- E porque você não muda?
- Você é místico?
- Não! Você é burra?



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

A história se chama "Carne de Língua". Em 2013, no dia 17, dia  do meu aniversário, resolvi fazer uma reunião com meu amigos. Alguns chegaram só depois da manifestação que ocupou a cidade de gente pedindo várias coisas que ninguém mais sabia o que era. Fato é que boa parte dos convidados, assim como eu, não botavam mais fé naquilo tudo, e estavam lá, na casinha da Mooca. Pediram pra que um deles contasse uma história. Ele, tímido, não queria contar. Insisti e ele acabou contando uma chamada "Carne de Língua". Hoje, revirando meus diários, achei uma anotação sobre o que uma das minhas amigas disse, naquela noite, antes de ir embora.
O registro grita sobre o que foi ignorado.
E reforça o que foi supervalorizado!

"Sirva-se!!"

Afinal, uma mulher que não serve, serve pra quê?
Melhor levá-la pra uma outra casa!


A última vez que abri a porta, assim como todas as outras 300 vezes, foi porque realmente achei que alguma brisa boa pudesse arejar os cômodos. Mas o vendaval passou novamente e agora sei que tem muita coisa morta pra enterrar. Mas não localizo os corpos. Espero em vão as equipes de resgate:o local é de difícil acesso.
Talvez daqui um mil anos, as ruínas sejam descobertas, inventem versões para destruição e desaparecimento do que havia aqui dentro e cobrem ingressos caros para estrangeiros. A porta estará aberta, escancarada eternamente, contra minha eterna e burra vontade.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Se morreu, não dá pra saber. e a ansiedade não deixa esperar pra ver se é só um coma.
Ansiedade para desligar aparelho é mais cômodo para corações inquietos sedentos por sofrimento e alívio imediato.

Mas como falta coragem, adormecer e descer na estação errada já serve para um pequeno suplício.

Enquanto isso, do outro lado da estação, tem alguém elaborando textos rebuscados, para justificar sua covardia. Ensaia textos pseudo-piedosos, com voz empolada. Cita meia dúzia de estudiosos e filósofos. Quando chega em casa, procura no Google como faz para trocar uma lâmpada.

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

"Adoro você, menina..."

mas odeio poesia!

Poesia de contato, eu degladiando comigo, comigo
Minhas palavras toscas, meus sentimentos imbecis.
E depois de degladiar tanto... declaro um cessar fogo.
E sofro. E cedo
Bonita poesia de poeta morto pra mulher viva
Mulher com letras fantásticas lida com voz de fantasma
Voz-timbre poeta lendo
Beleza, força e um remendo
E como viver não basta, agente quer dar valor e peso ao que acabou de ser vivido
Qualificar porque não basta!
Não em São Paulo! Não basta!
Já que esquina tem moto retorcida, espectro de corpo derretido com sangue endurecido pelo asfalto.
- Será que morreu?
Se morreu!
Tem faixa de segurança pra perícia decidir como foi que aconteceu
Remontar o teatro
Refazer a história
Se tinhas sonhos... se morreu...se bateu... se correu
Heresia querer escrever bonito com sangue dos outros

E o que me consola (sim, quero ser consolada), é saber que isso aqui não é poesia.
vaidade e exibicionismo gratuito.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Terceira pessoa do singular

Aí, terminei de falar e a Larissa disse, rindo:

- Professora, você tá falando tudo em terceira pessoa. O que aconteceu? (risos, muitos risos, olhos brilhantes).

Olhei pra ela, parei de falar e ri junto.

E decidi escrever, depois de revisitar todos os artifícios que crio ao longo dessa vidinha miserável.

- Por que em terceira pessoa?

Nenhuma resposta.
Mudei a pergunta:

- QUANDO EM TERCEIRA PESSOA?

Coisas de revisitamento.

Datei e cataloguei.

Conclusão das escavações:

Quando cansada de mim!!!!!

Salta pra Matilde, Pula pra Lindamir. Cade a outra linha, pelo amor de deus!?

Simples assim, Larissa!

Alunos são pequenos cúmplices do que ainda falta ser aprendido.





terça-feira, 7 de julho de 2015

Amor de muito

Sua obsessão é porque não está onde gostaria de estar. Está tão doente, que se estivesse onde agora pensa que gostaria, com certeza estaria pensando que seria melhor estar em outro lugar.

Seu peso aumenta.
Suas dores aumentam.
Mas o problema é o fundamentalismo religioso
Sua paranoia com sexo aumenta
Ela não dá pra você?
Não é porque ela não te quer
É porque você não quer
Mas o problema está naquela senhora da fila que esquece o cartão toda vez que você está atrás dela no mercado

Você é tão descolado, tem tantos títulos, mas como todo bom egoísta não dá os créditos no final.
Não sabe nada de silêncio, porque suas mãos e mente ruidosas não param de clicar procurando um sinalzinho de você mesmo onde você sabe muito bem que não é mais bem vindo.

O seu castelo tá pequeno demais?
Por isso quer sair?
Tá grande demais?
Por isso essa miséria e solidão?
Teorizando tanto sobre pessoas e animais, ainda não achou o que queria?
Vai procurar até quando?

Para minha paranóia, já procurei as terapias recomendadas. Para minha falta de tragédia, já deixei para os gregos a parte que lhe cabem dessa grande arte. Para minha falta de vergonha na cara, já deixei pra trás assumidamente, tudo o que não quero mais para mim.

Não sou grata e nem reclamo.

E não quero mais entender porque uma pessoa que deixa claro uma coisa que não quer mais, é chamada de sacana e egoísta.
Não preciso mais entender, porque não quero ser piedosa e nem ter amigos eternos.

"É no não que se descobre de verdade, o que te sobra além das coisas casuais"
Será?
Nunca ouvi um não de verdade! Nunca! Sempre me deixaram no talvez. e nesse talvez construí muitas possibilidades, que nunca se concretizaram. E aí gritarão lá do fundo: Mas você já ouviu muito SIM!
NÃO! Os pretensiosos que acham que o que estavam me dizendo era um grande sim de amor sem fim, estavam na verdade com o "talvez" no canto da boca, no fundo do coração, ressabiados, disfarçados de "sim", para caso as coisas não dessem certo, pudessem ocupar seus lindos pedestais de vítimas. E aceitei tudo, como boa católica capuchinha.

Não é felicidade o que estou sentindo. E nem uma coisa sem nome. O que estou sentindo é uma coisa inteira, completa, sem passado,sem dívidas. O que estou sentindo está aqui e agora.
Sou eu. Estou eu no fundo de mim e não cabe mais ninguém. Nenhum fantasma, nenhum anônimo, nenhum homem nem mesmo mulher sem rosto, sem voz, sem coragem. Nenhum jogo. Uma das coisas mais lindas que me disseram foi que "coragem" é agir com o coração. É com ele que estou aqui no fundo. Repousada em mim mesma. E isso não é uma bula, nem uma fórmula. Isso é uma declaração de estado civil, de estado irremediável do meu ser, que sempre foi alheio e esteve as voltas com migalhas que eu mesma me propus e fui catando. Aqui onde estou não existe talvez. Aqui as coisas são. O que não é, não existe, então não pode ser sentido e nem tocado. Por isso não está.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Hello Soldiers!!!

No plural sim, SOLDADOS!
Afinal, o que vieram fazer aqui, senão me ajudar a desmontar toda essa porcaria gigantesca cheia de graxa, que não serve pra nada!
Sei que pensam que desembarcaram desse trem num cenário "Mad Max" e que vão viver uma grande aventura. Mas não! As únicas coisas que temos, por enquanto, são parafusos! Muitos parafusos para desparafusar. Não adiantar ficar pensando como fazer! Tem que ir lá e colocar a mão. Só assim saberão.
E estão esperando mais o que de mim? Não adianta me olhar com essas caras! Estou insistindo em vocês, mas vou avisando: sou insistente, mas não infinita! COMECEM!

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Ela mesma não acreditava no que tinha feito: um pássaro vermelho preso por tanto tento! Como pode? Não se lembrava de tê-lo prendido ali, mas sabia sim que tinha sido ela mesma. Uma memória ancestral a fazia assumir o crime. Crime? Não conseguia rotular seu ato distraído como crime. Apenas como como um deslize. Sabia que o tinha prendido ali por vergonha, medo... Não sabia dizer e gaguejava ao tentar explicar. Não conseguia entender: mesmo solto, o pássaro vermelho, todo desgrenhado, não voava. Os que observavam sabiam de pronto que era atrofia, falta de costume.Era um esquecimento também. Nesse ponto há a possibilidade do perdão. E quem sabe no esquecimento dos pesos que carregavam, um dos dois aprenda a voar.

domingo, 10 de maio de 2015

Sobre cozinhas e sapos

Estava vestido com roupa de açougueiro. Mas o chapéu parecia mais com o de um chef de cozinha. Colocou as luvas com um sorrisinho de canto de boca, acenou com a cabeça para o lado esquerdo. Ela vinha debaixo, vestida de açougueira, mas o chapéu parecia... qualquer coisa. Ela já estava com as luvas nas mãos e veio na minha direção. Segurou meu nariz bem forte, até eu quase morrer e fui obrigada a abraçar quem não queria para me salvar. Antes de entrar na outra sala, me ocupei de procurar minha bolsa perdida. Havia um milhão de outras bolsas e enquanto procurava, ia narrando para uma câmera orientações sobre como se salvar de sapos. Poderia ter intuído que era melhor não ter trocado de cômodo.

domingo, 3 de maio de 2015

Não conte para ninguém

Era um cubículo de um por um, no máximo. Sem muito motivo aparente, ela estava sem roupa. Tentava colocar alguma coisa para fora de seu corpo, fazendo movimentos parecidos com os de uma minhoca. Talvez alguma emoção. Sabia que ele chegaria, mas não queria que a visse nua. Era tarde. Quando ele chegou, tentaram alguma proximidade. A emoção parou no que parecia ser uma parede invisível entre os dois. Saíram do cubículo para experimentar se com mais ar alguma coisa se superava. Do lado de fora, conseguiram ficar mais fortes. Porém, homens aos pares, engravatados, os observavam. Alguns fingiam ignorar, mas estavam ali para garantir que nada acontecesse entre os dois. Ele deu uma desculpa, esfarrapada como todas as outras e disse que tinha que ir. No fundo sabia que não tinha disposição para enfrentar tanto julgamento. Quando ele se foi, todos os outros homens desapareceram como mágica. Ela ficou sozinha, nua, com a estranha sensação de abandono, mas também de que no fundo. estava melhor melhor dentro do cubículo esperando o que não iria acontecer.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Eram agudos, mas eram de rabeca, então consegui suportar.
Uma música linda, no limite do que é suportável de notas agudas. Odeio agudos. Odeio mesmo e não tem livro budista que me faça retirar o que escrevi. Odeio com o poder de todo o ferro sedimentado no meu fígado. Odeio com toda a força que me fazia socar o guarda roupa antes de varrer o chão. Voltando aos agudos da rabeca, só porque eles combinam com o papel amarelado que a mão da velha tava abrindo. A letra era um garrancho. E sabe o que dizia aquele emaranhado de garranchos? Que a noite tinha sido ótima e que foi muito bom dançar com ela. A velha dançava e não tinha restrições. Nem com agudos.

Júpiter em Capricórnio...Retrógrado.

Marte na 1: um soldado sempre a postos. Seja para defender ou foder tudo. Aí me mandam fazer algo e por mais que seja minha obrigação, reluto, saboto. Não faço! Aí dizem que é a cúspide em aquário, a iconoclastia insubordinável. Seria tão mais fácil se o soldado apenas cumprisse as ordens. Seria bom também, por outro lado, se colocasse os cravos no cano... como naquela revolução lá. Mas antes das flores, sempre saem as balas de canhão. Não... não sempre. Antes o cano era entupido, vulcão em ebulição. Agora é bombardeio. Parece que depois do retorno de Saturno, escorpião na 1 ficou mais forte, também por causa do Sol na 8. Há também um aglutinado em gêmeos, pronto para voar, feito pipa. Mas tem um fio... um fio de um único elemento em terra. Um fiozinho de esperança. A questão é: para quem?
O ônibus não estava desgovernado. Só não era possível frear. Ia em alta velocidade, mas o controle era meu. E ali, logo em frente muito gigantesca: Nossa Senhora de lourdes. Fiz a volta e pedi que a amiga (?) assumisse o controle. Precisei ir ao banheiro. Lá dentro, três tartarugas. Tudo culpa do meu pai. Se ele não tivesse criticado a afinação da minha flauta, nada daquilo teria acontecido.

E esse personagem aí?

E o seu blog?
E a vida?
Ainda está as artes?
Ainda mora no mesmo lugar?
e sua mãe? Irmã?
Casou?
Lembra...?

Tá lá. Não. Nada. Não. Não sei. Tá lá, tá lá... não sei... não... não sei.


domingo, 26 de abril de 2015

Dor de cotovelo. Recalque. Inveja. Ciúme. Vazio. Contra-indicação.
Tem hífen?
Dá pra separar tudo isso com um traço? Ir resolvendo tudo tim-tim-por-tim-tim. Vai ficar tudo limpinho no final!
Texto bom será esse, que nascerá com uma gaveta para cada coisa. Um espaço para cada ponto, uma curva para cada vírgula. Respiração e silêncio para intenções. Mas como os espaços são curtos, não cabem julgamentos. Talvez nas entrelinhas. Ou nas notas de rodapé.

Certo dia, um sábio foi até Buda e disse:
- Eu vim discutir a verdade com o senhor.
E Buda respondeu:
- Que bom, então não haverá discussão.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Entrou na padaria, sentou e pediu a senha do wifi. O garçom, meio sem jeito, ofereceu junto com a senha, o cardápio. Sem agradecer ao garçom, conectou à rede social pela qual era obcecado. Não procurava qualquer uma:há anos tentava encontrar a menina pela qual foi apaixonado na infância. No caixa, pagando a comanda, uma morena de olhos verdes, olhava fixamente para ele. Tinha um sorriso satisfeito nos lábios e um olhar de quem reconhecia e lembrava o quanto ele sempre fora um perfeito idiota. Desde menino.

domingo, 19 de abril de 2015

Viu a moça estirada no chão. Sabia que não estava morta, porém teve dúvidas se o sono era desmaio ou bebida. pensou que ela precisava de ajuda e logo foi tomado por milhares de julgamentos puritanos acerca do que a teria feito deitar na sarjeta.
Mal sabia ele que ela estava ali na noite mais feliz de sua vida. Bêbada e esperando o marido, também embriagado, trazer um copo d'água.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

O guarda-roupas tinha virado um emaranhado de baratas. Muitas. Levantou, foi ao banheiro. Pensou em ligar para alguém. Franziu a testa. Três e dez da manhã. Não era hora de um guarda roupas ganhar vida de inseto. Pegou a lanterna, voltou para o quarto. Apontou na direção do guard...
Voltou para a cama.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Ato falho

- Qual o filme?

- "Amor à primeira vista".

- Briga...

- Ah é.. Dois ingressos para "Amor a primeira briga".

E se amaram bastante até depois do filme acabar.

domingo, 5 de abril de 2015

2:37 am

Viu o homem e ficou assustada. Pediu para a menina menor fechar a janela antes que ele chegasse mais perto. O homem perambulava cambaleante e era muito pálido. Não estava bêbado, tampouco era deficiente. Mas era assustadora a forma como se movimentava. Mesmo com as janelas fechadas, a mulher ainda sentia muito medo. E os pedidos para fechar a janela foram substituídos por gritos de desespero.
- Me solta!
Um homem apareceu grudado em sua cintura.Não era o mesmo que cambaleava. Esse era cinza e tinha um saco cobrindo a metade da cabeça. Ele dava pequenas cutucadas em sua virilha. E ela não conseguia mais pedir ajuda: a menina tinha sumido.

sábado, 4 de abril de 2015

Sábado de Aleluia

A sensação é de que terá que citar Kafka eternamente e ficará sempre às voltas com os finais de García Marquez. Que sentirá sempre uma culpa mortal por nunca ter lido nada de Dostoievski. E a culpa é reforçada porque sabe que nunca lerá nada dele. Não quer. Mas insiste em ter alguns do Vargas Llosa na lista das próximas leituras, sem culpa. Levantou da cama com esse peso. Todo dia escolhia algum peso pra carregar, não importava a relevância para a humanidade. Toda vez que acordava, sua primeira decisão era ser mártir de algum assunto. O de hoje for ser apedrejada por suas escolhas literárias. Tudo isso por causa da mulher do Stephen King. Soube que ela recolheu do lixo  os escritos de "Carrie, a estranha". Ele achou que era lixo, ela sabia que era ouro. Sentiu inveja da sorte que é ter alguém que bote a mão no fogo pelo que se decidiu queimar.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Como não tinha mais saída, recorreu à uma ponte capenga.Verde clara. Aquele verde-plástico-leitoso que a remetia às aulas, às malditas aulas no ensino primário. Odiava o som abafado da cidade amanhecendo e o caminho que tinha que fazer até a escola, sempre com sua mãe muito à frente e ela com sua mochila muito atrás. Odiava ter que atravessar aquela ponte capenga e além de encarar as lembranças ter que encarar seu pavor da altura e da escuridão da água que estava sob ela. A ponde dançava freneticamente. Muitas balançadas a cada passo e não havia espaço para sentir enjoo. Mesmo assim, talvez pela força do costume de querer ser boa, pensava nos que ainda teriam que passar por ali depois dela. Quando estava a um passo de pisar em chão firme, viu Fernanda. Viu que Fernanda esticava os braços. Viu que Fernanda lhe oferecia a mão. Viu que Fernanda queria ajudá-la. Lembrou que uma semana antes, viu Fernanda no metro, depois de 15 anos sem vê-la. Achou que Fernanda estava feia como sempre. E como não gostava de Fernanda, mesmo tendo uma convivência pacifica diária, ignorou o encontro casual e fingiu que não a viu. Agora, a um passo de se livrar da ponte, só tinha uma saída.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ninguém escreve ao Coronel, ninguém escreve ao Coronel, ninguém escreve ao Coronel.
A vida é curta, Aurel! Ou seria Manuel? Não lembro, só sei que aquele livro cheio de água diz que a vida é curta, enquanto no outro, aquele outro lá, todo árido, ninguém escreve. O Coronel espera e a galin... ou era galo? Não lembro. Só sei que esperava também,. Galos e galinhas esperam enquanto ciscam. Esperam que ali no cisco encontre seu banquete. De cisco em cisco galos e galinhas esperam como o Coronel, que não sabe, assim como Aurel (ou Manuel?) que a vida é curta. Os escritores colocam sempre as vozes femininas para dizer aos coronéis e Auréis, que além da vida ser curta eles também podem ser outros. Quem sabem Manoéis.

- Coronel Manoel, o senhor conhece algum sujeito chamado Aurel?
- Sim, General. Conheci há algum anos. Mas faz tanto tempo que não o vejo, que me esqueci dele.
- Não se lembra nada dele?
- Pouca coisa. Ele sempre dizia que ouvia uma voz lembrando ele de alguma coisa sobre a vida.
- Sabe alguma coisa sobre ele ter uma galinha? Ou uma galo?
- Não. Só sei que ele sumiu pra se livrar da voz.
- Ok, obrigada pelos esclarecimentos. Aproveito para avisar que chegou uma carta para o senhor. Como estamos num momento delicado, tive que abri-la por questões de segurança.
- Certo, General. E do que se trata a carta?
- Antes do assunto, o senhor precisa passar no gabinete do Marechal e protocolar um pedido para ler o conteúdo da carta. Nesse meio tempo, investigaremos se ela foi escrita para o senhor mesmo, se há alguma espécie de mensagem subliminar ou conteúdo perigoso para nossa segurança.

O Coronel bateu continência e saiu da sala do general. Segurava no bolso um papelzinho amassado de conteúdo desconhecido até o momento.

Onde está a voz feminina deste texto?

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Retranca de uma cidade mal lavada

Pelo retrovisor, ele vindo com ela, cambaleando.
Ele, um cara.
Ela, a moto.
Ele de terno, ela no asfalto.
Ele tentava se equilibrar.
Ela pesava, pesava. Pesava!
Fica longe dela! Mantenha a distância dele.
Logo ali na outra esquina, um caminhão entalou.
Mas não era qualquer caminhão: era água potável.
Olha a cara dele. Quero chegar mais perto dela!
O motorista, meio que adivinhando o pensamento dos motoristas, que diminuíam a velocidade não por curiosidade, mas como que se dando um tempo para imaginarem de que forma o caminhão poderia ser levado para si... do que eu tava falando? Ah! Do motorista. Ele sabia que dentro dos carros que passavam estávamos nós sedentos pela água potável, que outrora deixávamos escoar pelo ralo em banhos intermináveis, pós bebedeira, pós briga de fim de relacionamento, pós qualquer coisa que servisse de desculpa para ficar meia hora no banho pensando na vida.
Eis que o caminhão ficou para trás e logo em frente uma kombi solitária. Seu dono ou apenas o eventual motorista naquele momento, sentou-se resignado.
a CET sinalizando o desastre dele. Não dava pra ver o que tinha no interior dela.
Seguindo para o término do trajeto e quem sabe o fim de tantos episódios...
Ele parado. Ela aguentando o peso.
Ele o trânsito, ela a Consolação.
Veículo longo para desconsolo.
Cruzamento fechado por carros amontoados.
Fique atenta, não relaxe, o trânsito flui, mas a Consolação ainda não acabou.
Não acaba, nunca acaba, nem quando o que sobra dela, fica só no retrovisor.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Avenida Doutor Arnaldo, 17:43 do dia Treze de Novembro. Chuva. Transito insistentemente parado.

Mas sabia que assim como a primavera, haveria outras chuvas. Fortes ou silenciosas, haveria. 
Já do amor, não. Esse e outros demônios, sabia que não tinha hora certa. E nessa hora, haverá quem diga que a água, assim como o amor, não tem hora certa para desaparecer e nunca mais surgir. Podemos viver e de fato estamos vivendo um grande momento de estiagem. 
E por outro lado, há os que sabem que já estamos bem avançados, pelo menos no que diz respeito aos cálculos e sendo a natureza cíclica, sabemos que projeções estão aí para prever estiagens e dilúvios. Não estamos mais tão à mercê de um deus mal do velho testamento, cheio de pestes na manga pronto para nos punir por uma inocente maça! Podemos prever estiagens com alguns anos de antecedência, para daí tomarmos as devidas precauções. Porém responsabilidade não cai do céu e como no geral estamos desconectados das coisas naturais, ficamos reféns da escassez. Há os que dizem que estão de malas prontas para ir de encontro a outras terras de onde jorre água boa, sem cloro morto da SABESP. 
E o amor que não vem pelos canos, nem entra pelas torneiras? Esse que não vemos mais nas esquinas? Que não cansamos de pixar em nossos muros que não existe mais em nossa cidade? Haverá um outro lugar, longe daqui, onde o amor jorre puro e comum para quem quer que queira pegá-lo? Como faremos para prever quantos mililitros de amor, caíra do céu para preencher nossos reservatórios sem fundo e carentes de transbordamento? E quando transbordar, será possível projetar por quanto tempo podemos nos banhar e matar nossa sede? Poderemos recorrer à ajuda Federal, caso os níveis não subam até o final do verão? Confiaremos que assim como a primavera, o amor também haverá... sempre?





"Mas sabíamos que haveria sempre outra primavera, assim como sabíamos que o rio fluiria de novo depois de ter estado congelado. Quando as chuvas frias continuavam durante longo tempo e acabavam matando a primavera, era como se um jovem tivesse morrido à toa. Naqueles dias, porém, a primavera sempre triunfava, mas dava-nos um frio na espinha pensar que faltara pouco para que ela tivesse falhado."

Hemingway, "Paris é uma festa"

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Desbatização pretensiosa

Escrever é pretensioso. Tanto quanto viver. Insistindo em viver, achamos que ainda há o porvir maravilhoso, o que não foi vivido por ninguém. Escrevendo também. Batendo e vivendo milhares de vezes na mesma tecla. 

Cansa, cansa!

Caindo o feijão dentro da água limpa da panela de pressão ou vendo a água cair em cima da pasta de dente, que foi obrigada a repousar nas cerdas da escova. Dois momentos recentes em que foi possível viver o assalto pretensioso: estar presente. 

Estar visível é pretensioso. Em qualquer nível, em qualquer aproximação há o objetivo de expor alguma criação, alguma movimentação, algum pedido de socorro por estar vivo. Ei, Olha.... Aqui... Coloquei essa roupa só para vir aqui. Ei... Ei...

A forma como nossas pretensões vão se enredando, chamamos de relações, não é? Nelas viramos juízes e partindo do princípio de que nossas pretensões são originais e carregadas de verdades únicas, damos vereditos incontestáveis. E solitários.

Escrevendo essas linhas, pretensiosamente tento me aventurar numa nova forma e me livrar de um encosto. Mas parece que não depende só de mim. Ou mesmo isso de dizer que não depende exclusivamente de mim, também é pretensão de dar à uma criação um tamanho que eu nem sei qual é e que nem deve ser tão grande assim para ter esse peso.

Descobri nos registros fétidos da internet, que dei nome errado para minha obsessão. Se soubesse, não teria queimado tanta coisa. Nem tempo, nem papel. Escreveria um tanto a mais e ajudaria minha memória despretensiosa, que precisa do corretor de escrita para aprender que "pretensão" é com S. Sinuoso!

2) A palavra pretensão tem sua origem na palavra em latim praetensio, devendo assim ser escrita com s e não com ç. Também com s deverão ser escritas todas as palavras de sua família (palavras cognatas): pretensão, despretensão, pretensioso, despretensioso, pretensiosidade

2) PRETENSÃO:  Do L. PRAETENDERE, “estender à frente, alegar, colocar adiante”, de PRAE-, “à frente”, mais TENDERE, “alongar, estender”.

sábado, 8 de novembro de 2014

Sorry to myself


“Eu adoraria saber quantas milhas eu caí até agora”, ela disse em voz alta. “Eu devo estar chegando em algum lugar perto do centro da terra. Deixe-me ver. Até aqui eu já desci umas 400 milhas, eu acho... (você vê, Alice aprendeu uma porção desse tipo de coisas na escola e pensou que seria muito boa a oportunidade de colocar para fora seu conhecimento; mesmo não havendo ninguém para ouvi-la, ainda assim era bom praticar.)"

Alice no País das Maravilhas

Havia um cavalo! Ele corria bem rápido. Só o reencontrei agora, andando de tirolesa e descansando no container. O ajudei a tirar os sapatos. De salto! Ele parecia bem cansado de se auto-impor aceitação.Ele disse que deu trabalho pular o muro.Por isso a tirolesa.


Isso de se aceitar é coisa de quem vai fundo? Isso realmente existe? Ou é invenção da indústria pra não deixar que a gente desista? Nascemos para ficar em pé? Isso é autoimposição evolutiva? 





terça-feira, 28 de outubro de 2014

Tensão Pré Durante e Pós... Momento Traumático

Sempre achei uma injustiça a superlotação do transporte coletivo em São Paulo. Sempre achei que era descaso dos governantes.
Agora sei que é Síndrome de Estocolmo.
Posso querer atirar nos sequestradores e nos que se identificam com eles?

Em seu sentido etimológico, democracia deriva do grego demos (povo) e kratos (para poder, autoridade) – demokratia – de forma que uma reflexão sobre a palavra Democracia tem necessariamente que tomar como ponto de partida seu próprio conceito etimológico de o governo do povo.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Ela não está lá

Nenhum deles gostou dela.
Depois de acabar, ou bem perto do fim do laço que a unia com eles, um interesse repentino por ela os acometeu. É sempre o mesmo enredo, a mesma trajetória do desdém que esconde um desejo furioso de aniquilação.
Ela que é um trapo, que já fez o mesmo caminho muitas vezes, ao mostrar suas vestes sujas, mas ainda sim fortes como um árvore secular, faz com que eles vejam que os esforços por desviá-la são inúteis e envergonhados e resignados, desejam curvar-se à sua força.
Mas nessa hora, ela não está mais lá. Lembremo-no que falamos de uma iconoclasta, que odeia reverências e falsos protocolos respeitosos.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Há camadas a serem instigadas mais a fundo, não por não conhecê-las bem, mas por ainda não dominar quais recursos das linguagens conhecidas serão necessários para descrever e revive-las na memória. O passar dos dias torna mais vivas as cores das lembranças. Mas não é saudade.É um longo processo de despedida. O reencontro é com o que está lá na esquina, torcendo pelo devir.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Hoje é dia 2 de outubro de dois mil e catorze. Costumo escrever sobre a lua em alguns rascunhos, mas não sei da lua de hoje. Escrevo porque além de minha fé cega, de quem mora na cidade e quase não a vê, sei que se ela remexe nas marés, pode dar uma bagunçada aqui.
Essa semana vi o novo filme do Woody Allen. E hoje comecei e terminei de ler um livro da Clarissa Pinkola. Limpei a casa, ouvi música.
Fui na terapia.
Quebrei meu celular, almocei, li as notícias.
Assim como as marés revolvidas pela força da lua, estou aqui revolvida pela força dos ciclos internos e externos. E em meio aos tropeços, produzo SIM. Em meio a minha auto avaliação severa, caminho.
Alguns ciclos endurecem, outros amolecem partes adormecidas.
Por aqui não há como fazer uma avaliação. Entre a magia do filme e as árvores do livro que acabo de ler, chego à conclusão que as terras por aqui ainda estão em chamas.


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Olha-se no espelho.Porque a "crítica" é quando a supervalorização da estética física. Na verdade é um intenso processo de autoanálise. A mão tinha que abrir o grande espelho do guarda roupa, que a menina insistia em encarar com curiosidade num misto de reconhecer-se, engraçar-se por si mesma. Após  auto maquiagem para ver-se em outro estado, para arremeter-se para outra maneira de estar e quem sabe até para outro lugar, ela para. Para bem no meio e diz o quanto tinha inveja dos que sonhavam que estavam voando. Ela só sonhava com pés descalços e vergonha por não ter o que calçar. Daí, ela decide que girando voará e será a mulher maravilha. Quando alça o voo, pega a caixinha e música de sua bisavó, a quem chamava de vó. A avó de verdade apanhou muito do avô, falava sozinha, apesar de interagir bem com as pessoas. Transitava entre o estar e o não estar presente, como se ligasse uma chavinha. Era só chamar ela de volta que ela saia do universo onde relatava desgraças e fazia ameaças a um homem maldito.  Entra num mergulho até as profundas águas que levaram Ofélia. Lá, vê-se novamente, mas de uma formar que pesa e a leve para o fundo das águas de Virginia Wolf. De lá submerge assustada Decide fazer um café, dedicado à seu marido.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Isso é sobre o período transitório entre o nascimento e crescimento de uma árvore. Há qualquer coisa ali que explode a olhos vistos, mas dependendo da camada de sensibilidade do espectador, pode acontecer de ninguém ver as cores que explodem. A altura, o diâmetro não passa desapercebido, pois esse mundo daqui é competitivo e quanto mais melhor. Todos sabem do tronco, da copa e imaginam que sabem das raízes. Mas as cores que explodem... São por outro acesso.

Não pode-se perder de vista, ou do sentir: embaixo duma árvore recém nascida, há uma ancestral, dita morta, lixada e encerada.



terça-feira, 19 de agosto de 2014

um tanto de conto que poderia ser escrito

tinha um vitral a ser pintado. Que já poderia ter sido pintado muito tempo antes. mas como a questão não era apenas contar o tempo, um dia fizeram o que tinha que ser feito. um vitral, quente e esfriado.
o sol poderia explodir, mas ele prefere irradiar o dia de um lado e depois do outro. teve um dia, que o sol encontrou o vitral. poderia ser só um toque superficial, mas o sol sentiu que atravessava algo novo e não quis anoitecer. o vitral, quente e iluminado, descobriu para o que nasceu e experimentou o que era cumprir sua existência, que havia ficado num registro ancestral de sua forja.
alguns chamaram de paixão.

Da Malandragem

Pegou o Lego e ficou jogado no chão. Fiquei olhando o corpinho pequeno e frágil. Ele ainda gosta de ser criança, pensei. Aí, com a Cássia Eller ao fundo, ele diz:

- Mas afinal. Ele é poeta? Ele é criança? Ele fala que é a coisa mas diz que não sabe fazer...
- Ele quem?
- Ele, o que tá cantando.
- Não é ele, é ela.
- Aí, tá vendo!


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Avenida 23 de Maio, caminhando contra o vento de dia frio cortante, ao lado da moça medrosa que recuou por medo do garoto mal encarado de blusa preta que seguia um pouco mais à frente. Atentou para como estava andando, a tranquilidade diante da histeria da outra moça. Apesar da tranquilidade que o momento exigia de si, já que, resignada fazia o caminho à pé, tomou consciência quase heroica, de que num contexto geral, vivemos um momento realmente sério. Achar-se inserida num quadro político, ético... e ... num suspiro quase infantil, mas ainda mantendo a gravidade de 5 segundos atrás, acrescentou à si a certeza de que estava projetando para fora de si, a seriedade que estava tendo que ter consigo mesma.
-
O subtexto é uma camada, transponível, porém ignorada, à princípio. Mas o subtexto aqui é mais que o texto, porque ele grita mais alto. Há um quê todo da Matilde querendo saltar por algum boeiro da 23 de Maio ou dar uma canelada na moça loira. Mas por hora, o que poderia ser o texto começando para Matilde, é este acima, com a consciência de si, somente no final. Ela nunca deixaria o suspiro no final. Matilde é existência dura, pré suspiro.

E uma outra camada de mim mesma, ainda maior que a anterior, abre-se diante da tela digitada. Escrever é algo forjado, à duras penas. Mas trata-se de uma punição imposta pela própria vítima, que se retalha em milhares, para que um dia se encontre com partes amadurecidas de si, no meio de tantas palavras.

sábado, 9 de agosto de 2014

Não há nenhuma lacuna à ser preenchida. Nenhuma explicação a ser dada. Nenhum fato a ser esmiuçado, afim de satisfazer o gozo precipitado dos que se alimentam das oscilações alheias. A ida à Montezuma tratava de por fim de vez à qualquer questão. Não como um corpo morto e enterrado. Mas como uma oferenda, posta ao fogo e que em seguida, suas cinzas são jogadas ao vento. Assim se deu com tudo o que veio depois que ela passou por Montezuma. E resistindo à tentação de achar as coincidências em símbolos e pequenos fatos cotidianos, pode dar espaço a onda que trazia a convicção de que, estando sonâmbula quando chegou naquele lugar, sabia que a experiência de estar desperta era uma nova responsabilidade.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tem a noiva cadáver e a que foge do casamento. Tem a que desmaia de emoção, a que é abandonada e...

Tem a Matilde.
Marte em libra e mais oito trânsitos astrológicos desfavoráveis no momento em que Matilde colocou o véu.

A fumaça do cigarro inebriando:
"- Que olhar de interrogação é esse?"
"- Interrogação?"
"- Não é interrogação, né? É exclamação!".

Barba Azul defumava a catedral antes do casamento mau-agourado. Charutos cubanos da China. No último banco, Lorde Bundinha, de muleta e o que sobrou de sua perna direita.

Matilde vai além da adivinhação. Regurgita a previsão que antecede o incêndio.
Ao fundo, os ecos de uma risada peçonhenta. Era um gravador.

Matilde fez questão do anel de brilhantes e do dote.
Barba Azul pagou caro. Nos dois sentidos.

♫ Foi assim - 2 ♫

Enquanto isso, Wanderleia, espera no altar:

não pagaram o cachê de sua apresentação para cantar a marcha nupcial.




Tem a noiva cadáver e a que foge do casamento. Tem a que desmaia de emoção, a que é abandonada e...

Tem a Matilde. 

Marte em libra e mais oito trânsitos astrológicos desfavoráveis no momento em que Matilde colocou o véu. 

A fumaça do cigarro inebriando:
"- Que olhar de interrogação é esse?"
"- Interrogação?"
"- Não é interrogação, né? É exclamação!".

Barba Azul defumava a catedral antes do casamento mau-agourado. Charutos cubanos da China. No último banco, Lorde Bundinha, de muleta e o que sobrou de sua perna direita.

Matilde vai além da adivinhação. Regurgita a previsão que antecede o incêndio.
Ao fundo, os ecos de uma risada peçonhenta. Era um gravador.

Matilde fez questão do anel de brilhantes e do dote.
Barba Azul pagou caro. Nos dois sentidos.

Eutatilde

Na quarta linha havia a menção de uma autorização. Pedia que desligasse os aparelhos em caso de hemorragia. Seria um alívio! O subtexto da quarta linha era uma confissão: uma declaração de amor escondida. Ela amava o precipício. A bile que cuspiu, era a tinta com a qual assinaria a declaração de amor com autorização de morte assistida.

Com um sorriso no canto do rosto, testa suave, adrenalina no limite, levantou a mão para desligar o respirador.

Mas pela porta dos fundos, entra Barba Azul, com charuto, sangue e destroços na mão. Camisa branca manchada de orgulho ferido.

A Portuguesa sobe. A torcida vibra!

Não a do Fluminense, que grita: MORRE MATILDE!

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Foi assim...

Matilde viu ele passar por ela. E cuspiu. Cuspiu até a bile.
Matilde odeia ele. Fala que parece o palhaço da kombi. Aquele que toda mãe teme.
Mas Dona Matilde ficou mais brava com o que veio depois.

Compulsivo. Doloroso. Saindo feito vômito. Não para de sair nunca. Era sangue estancado, agora é água turva incontrolável. A última coisa que ela falou foi sobre a SABESP? Tem uma árvore saindo de um boeiro na esquina da Rua da Mooca com alguma outra cheia de casinhas de 1918. Não lembro o nome. SABESP coloca muita coisa na água. Faz brasileira detestar água da argentina. Não bateu a cabeça? Está tonta, tonta. Doses altas de anti-alérgico e antiácido. Estômago explodindo. Não era só o Barba Azul que tinha um armário com mulheres mortas. Internada, tendo alucinações e vendo homens chamuscados. Lá dentro, lá no fundo do calabouço peçonhento. Agora jorra, jorra. Não, não! Anticoagulante não!!! Deixa sair tudo. Deixa vir a experiência de quase morte.
Não vai ser roleta russa.
Dessa vez Matilde não escapa!

domingo, 8 de dezembro de 2013

Mulher suja, se vinga após ser chamada de "adolescente esquizofrênica" e passar meses trancada num armário.

Se os cabelos brancos apareceram, grandes, longos e fortes é porque alguém os deixou entrar. Covardia responsabilizar Matilde?
NÃO!

Não é covardia fazer uma constatação óbvia!
Matilde não deixaria barato, meses de negligência. Essa é sua vingança maligna: você resolveu guardar as chaves do Barba Azul? Silenciou, se achando esperta, após ter aberto a porta e escondido a chave sangrando dentro do armário? Toma! Já que era para sufocar, que sufocasse a impáfia dele, não o sangue DELAS!
E não há quem segure a fúria de Matilde ao relembrar o tempo e o desgaste que passou. Uma mulher tentando ser o que não é: bondosa, domada pela psiqué domesticada em doses homeopáticas por palo santo, no esgoto frio, peçonhento do Centro de São Paulo.
Se os cabelos brancos apareceram, longos e fortes é porque a Matilde quis!

Já está bem grandinha para essas coisas, não? Entra logo na porra desse carro e deixa eu te levar para casa!

Três horas da manhã na Radial, maquiagem borrada, substância desconhecida na corrente sanguínea. Homem desconhecido, deixado inconsciente, semi-louco na frente da Droga Raia. Matilde aparece em seu Ecosport 2013, oferendo ajuda.

Cúmulo da ironia!

Não Matilde, não vou pegar sua mão!
Matilde faz a volta, atravessa a Salim Farah Maluf. Matilde dignamente motorizada é uma afronta. Ela para de novo do meu lado, insiste. Fala que vai esperar no posto de gasolina. E sim, lá está ela, bebendo o diesel que o cartel superfaturou, esperando. Coloca o revolver enferrujado na cintura. Vamos!
As vistas ainda estão embaçadas?
Tudo embaçado, sujo e sem sentido. Por que essa vadia tá com essa arma na cintura?
Você sabe que não tem mais idade pra isso!
Porta de casa. Adeus Matilde. Chuveiro, 3 horas de banho. Matilde grita da rua:
Água da SABESP não limpa a sujeira daí de dentro. Vai dormir sua imbecil!
Depois de meses dormindo, os cabelos grisalhos se mostram no despertar em frente ao espelho. Vejo em parte mesmo, porque face a face, só se fosse pra sangrar. Matilde deixou bilhetinho:

Água da SABESP tem muito cloro, vadia! Niely Gold cor de Xuxa nesses fios!

Ecosport vira nave rosa e sobrevoa Rua da Mooca, coberta por gelo seco dos anos 80.

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Retomando a pocilga

O post de maio foi só o último suspiro. A queda antes do coma.

O que importa é que a sujeita aqui, em primeira pessoa mesmo, sem Matilde, não deverá, nunca mais...
Linha erro. Início de parágrafo erro.
Não pode haver um nunca mais em minha fala.
Esquizofrênica? Adolescente?

Mal cheirosa! Foi o que fiquei engolindo sujeira dos canos do centro da cidade. Canos mui bonitos e asseados por fora. Mas cheios de cacos, pregos, ranço secular de uma vida camuflada pelo vício da boa reputação e do ódio reprimido.

Diplomacia e omissão não são sinônimos. e a liberdade ganha ares levianos numa boca inteligente-retórica-articulada.

A liberdade tá lá na frente, como um ideal a ser vivido  e não como uma realidade a ser encorajada. E já que é uma utopia, que fiquemos presos à miséria das aparências. Da parcimônia. Da gargalhada contida pelo medo dos olhares e julgamentos.

O que faz um personalidade admirável ficar incômoda e "personalista" da noite para o dia?

O amor acaba quando não se tem mais necessidade de mentir?

A descarga não dá conta de escoar tudo! Precisa de um balde... dois ou três com água fervendo para ajudar!

Escalda bosta alheia engolida de bom gosto!

Servimos bem para servir sempre.

O tolo teme a noite. E como a noite, vai temer o fogo. Porque o tolo teme a luz também, pois já que não a tem, tem medo de se queimar.

A vida é um eterno coma, com alguns momentos de despertar.

Para dentro e avante!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Os mecanismos de rastreamento e de identificação de origem dos leitores de blogs e páginas do Facebook. Tinha esquecido como gostava deles! Fico imaginando a pessoa lá nos Estados Unidos, em "Palo Alto", acessando minha página e os motivos pelo qual ela o faz. E os que caem aqui de pára quedas...  Só mataforicamente, porque imagino a decepção do "tombo" quando a pessoa digita na busca do google "Carta à uma vadia" e chega aqui no meu blog, e não tem carta nenhuma. Só tem a vadia da Matilde.

Eis as buscas que mais trazem leitores para esse blog:

1) "Quem fica na região das portas atrapalha a vida dos outros"

2) "fotos antigas da Avenida Conselheiro Carrão"

3) "Ele me deu um fora mas sente ciúmes" (????????)

4) "Carta a uma vadia"

5) "Como comer minha cunhada"


SIMMMMM!! Como comer minha cunhada AINDA traz leitores para cá! Esse assunto é antigo, tanto que  já até deletei o texto sobre o assunto, que na época foi motivado por uma postagem do blog Bia sobre umas fotos e uma ex cunhada dela! O texto que escrevi trazia leitores e muitos deles comentava o texto relatando as maravilhas de satisfazer duas mulheres do mesmo sangue! Deletei o texto num ímpeto de limpeza de sei lá o quê. Mas ontem, relendo os textos iniciais deste blog, vendo os comentários da Bia e os índices de acesso, fiquei saudosa! Muitos textos não falam mais de mim, mas a audiência me envaideceu!

Seja qual busca te trouxe aqui, seja bem vindo! Matilde está reabrindo espaço para a primeira pessoa! Independente de quem ela ou você quer comer.

sábado, 11 de maio de 2013


Antes de chegar em casa, um cara veio pra cima de mim. É claro que fui obrigada a sacar a arma e dar um tiro na cabeça dele. Não ventava muito, então não deu pra fazer aquele olhar distante de normalidade pós miolos estourados e fingir que tava num faroeste, ou num Tarantino dos bons! Matilde só olhava. 
Subi a rua, entrei em casa. Matilde aflita, foi até o quadro de ferramentas, pegou uma chave de fenda e começou a tirar os parafusos da arma. Parafusos que foram se revelando de borracha bem molinha. Compatíveis com o estado fleumático de Matilde. Fomos nos aproximando do quintal nos fundos da casa e estava lá meu pai rasgando um monte de papel velho e jogando dentro de um latão e como se não bastasse rasgá-los, botava fogo também. Matilde teve a genial ideia de ir jogando os pedacinhos que desmontou da arma pra derreter no fogo junto com os papéis. 

- Bota a mão aí no fogo pra ver se saem os vestígios do que você fez também!

Às vezes Matilde tentava ser engraçada.

Depois de tudo eliminado, inclusive a não culpa pelo tiro, fui fazer crochê.